“Melhor é a boa fama do que o unguento precioso, e o dia da morte melhor do que o dia do nascimento.
Melhor é ir à casa onde há luto do que ir à casa onde há banquete, porque naquela se vê o fim de todos os homens, e os vivos o aplicam ao seu coração. Melhor é a mágoa do que o riso, porque com a tristeza do rosto se faz melhor o coração. O coração dos sábios está na casa do luto, mas o dos insensatos, na casa da alegria.”
(Eclesiastes 7:1-4)
Quando, em 2023, decidi iniciar os estudos em Educação Física, havia vislumbrado diversos planos e cenários na minha imaginação. Em nenhum deles — nem mesmo nos mais longínquos — me passava pela cabeça trabalhar em clínicas para adictos. Hoje, porém, compreendo que não fui eu quem escolheu esse caminho. Pode ser que ele tenha me escolhido. Ou, quem sabe, Deus já vinha me capacitando, por meio da minha própria história, para que um dia eu ali estivesse.
No início de 2025, logo no começo do semestre letivo, o professor doutor Rodrigo Paiva mencionou, ao final da aula, quase de passagem, uma vaga para atuar como professor de Educação Física em clínicas de reabilitação para dependentes químicos. Interessei-me de imediato, mas não soube como verbalizar da melhor forma naquele momento, e o assunto ficou inconcluso – como quem ainda aguarda seu tempo.
Algumas semanas depois, durante uma aula de lutas com o mesmo professor, o tema ressurgiu. Foi então que, ao compartilhar brevemente a história de meu pai, ouvi dele um questionamento simples, mas profundamente incisivo:
— Você precisa, né?
Aquelas palavras me atravessaram silenciosamente. Levaram-me a refletir que, por vezes, aquilo que está destinado a nos encontrar insiste — volta à tona — até que estejamos prontos para reconhecer. Os caminhos desenhados por Deus não se perdem no acaso nem se desfazem em meio a nossas hesitações.
Relutei. O semestre avançava em ritmo decisivo, as avaliações se acumulavam, e eu me via sobrecarregado em múltiplas demandas — mas, ainda assim, fui convencido.
No final de maio, iniciei os trabalhos no CT Semelhança, em Itu, e no CT Luz Recanto Esperança, em Sorocaba — movido não apenas pelo desejo de ajudar pessoas, mas também por começar a enxergar ali mais do que uma função, um propósito.
Os caminhos continuaram se abrindo. Em janeiro, passei a atuar também na clínica Viva a Vida, experiência que está ampliando ainda mais minha compreensão sobre a dor, a luta, a força e a resiliência presentes nos processos de recuperação.
Hoje dou graças a Deus por cada um desses passos — a Ele, que me conduz; a Rodrigo Paiva, cuja indicação foi instrumento de um encontro que, agora entendo, já vinha sendo preparado há muito tempo; e a Wesley Nunes, que me confiou a oportunidade.
Sou orgulhosamente filho de um dependente químico. Meu pai, Clóvis Cesar Machado de Araujo Sobrinho, ainda na infância, contraiu sarampo. Desafiando os apelos de minha avó, saiu para brincar na rua antes de estar plenamente recuperado. Como consequência, desenvolveu estrabismo e, na escola, tornou-se alvo constante de bullying.
Foi nesse contexto que encontrou no álcool — e, mais tarde, em outras drogas — um caminho que, por décadas, moldaria tanto a nossa história quanto a de nossa família. Sempre o reconheci como alguém de coração generoso, mas que, em meio a decisões difíceis e companhias pouco saudáveis, acabou se perdendo ao longo do percurso.
Na vida adulta, passou por diversas internações: por vezes saía bem, mas acabava regressando ao mesmo ciclo. Em sua casa, isso também gerava conflitos — ora minha avó era a favor da permanência no tratamento, ora meu avô preferia retirá-lo. Entre idas e vindas, a estabilidade nunca se firmava.
Em 2001, perdi meu avô. No ano seguinte, minha avó também se foi. Foi então que meu pai permaneceu internado no Instituto Bairral, em Itapira, onde ficou de 2002 a 2016 — quatorze anos ininterruptos — até seu falecimento.
Durante esse extenso período, visitei-o poucas vezes — talvez cinco. Não por ausência de amor, mas porque a dor me atravessava de maneira profunda e violenta. Após a primeira visita, lembro-me de passar cerca de três ou quatro meses chorando escondido, tentando elaborar sentimentos que, à época, eu sequer sabia nomear.
Em minha experiência profissional nas clínicas, recordo-me de ter ouvido que aquele ambiente era desafiador. Ouvi com respeito e imediatamente ponderei: estar ali, mas não como filho ou visitante. Para mim, de algum modo, estar ali trazia uma estranha tranquilidade — porque, naquele espaço, quem estava internado não era ele.
Foi nas clínicas que compreendi algo que antes me escapava: eu não fui ali apenas para trabalhar — procuro ajudar, mas também estou sendo profundamente ajudado. Isso ficou evidente em certa ocasião, quando um dos alunos, ao saber que meu pai era dependente químico, disse que aquela informação, mais do que qualquer outra, foi o start para que ele levasse os ensinamentos para além das aulas — hoje, mesmo cuidando da cozinha, o que inviabiliza sua participação nas aulas, treina todos os dias por conta própria.
Aquela fala me atravessou de maneira reflexiva, levando-me a perceber, com ainda mais clareza, que Deus não desperdiça nenhuma parte da nossa caminhada. Lembrei-me do Salmo 56:8: “Contaste os meus passos quando sofri perseguições. Recolhe as minhas lágrimas no teu odre; não estão elas inscritas no teu livro?” O que um dia foi dor — a história do meu pai, o estigma, o sofrimento — tornou-se exatamente o que tocou aquele aluno. A mesma dor que outrora pareceu inútil revelou-se ponte.
Os relatos que ouço dos alunos muitas vezes me colocam diante de situações vividas por mim. Cada história ecoa memórias antigas, mas, desta vez, de outra forma: a dor não me paralisa mais. Durante muitos anos, ao falar de meu pai, as lágrimas vinham inevitavelmente, acompanhadas da sensação de que eu nada havia feito por ele.
Hoje percebo uma mudança silenciosa dentro de mim. A conjugação desses verbos não é mais no tempo presente, mas, sim, no passado daquilo que, pela graça de Deus, vem sendo curado.
Com o tempo, também precisei maturar uma verdade indigesta: caminhar com Deus não significa ausência de dor. O amor de Deus não anula o livre-arbítrio — e há escolhas que ninguém pode fazer pelo outro. Mas aprendi que, mesmo quando não impede a ferida, Deus é capaz de agir através dela, ressignificando histórias que, aos nossos olhos, pareciam apenas perdas.
Foi nessa direção que passei a entender — e, talvez mais do que entender, a viver — de forma concreta o valioso ensinamento da bênção dos problemas, contido no livro 101 Lições de Sabedoria Espiritual:
“Você está enfrentando situações difíceis? Então, louve a Deus, porque tudo o que acontece com você é para que aprenda a perseverar. Aprimore seu caráter cristão e adquira, então, a esperança, pois que esta não decepciona. Os santos podem e devem gloriar-se nas tribulações. Problema é bênção!”
Esse preceito é fundamentado em (Romanos 5:3): “Não só isso, mas também nos gloriamos nas tribulações…”
O livro ainda traz a oração:
“Senhor, quero aprender a enfrentar as minhas tribulações junto contigo e, então, completar-me daquela esperança que somente tu podes me conceder.”
A minha experiência de vida me faz conectar esse trecho de Romanos com outro, do mesmo livro, que afirma:
“Todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus” (Romanos 8:28).
Aprendi, na prática, que para existir arco-íris é preciso, primeiro, que haja chuva — assim como mar calmo não faz bom marinheiro. Nenhum de nós deseja a tempestade, mas, muitas vezes, é justamente através dela que Deus começa a colorir novamente aquilo que parecia ter perdido o sentido.
Hoje sigo firmemente ancorado também à promessa de que o Senhor é capaz de renovar histórias:
“Eis que faço uma coisa nova; agora sairá à luz” (Isaías 43:19).
Se este relato chega até você que ainda atravessa dias difíceis, minha oração é simples: que você não desista no meio da tempestade. Porque, mesmo quando ainda não conseguimos enxergar, Deus já pode estar preparando as cores no horizonte.
“Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu: tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou; tempo de chorar e tempo de rir; tempo de prantear e tempo de saltar de alegria.”
(Eclesiastes 3:1-4)







Lindo texto, parabéns!!!