pare de se automedicar


“Porque sete vezes cai o justo, e se levanta; mas os ímpios tropeçam no mal.”
(Provérbios 24:16)

Há pouco tempo, passei por um processo para cuidar dos meus dentes. Inicialmente, eu iria apenas clareá-los e restaurá-los.

Por iniciativa própria, comprei uma pasta com carvão ativado, achando que assim aceleraria o processo. Descobri posteriormente que esse produto desgasta o esmalte dos dentes — exatamente o resultado oposto ao que eu queria.

Na visita seguinte, para a limpeza, novamente me senti inseguro. Pensei: “Preciso chegar lá com a situação mais controlada”. Passei um remédio bucal por conta própria, achando que assim “amenizaria” o problema. Durante a limpeza, meus dentes ficaram extremamente sensíveis, quase inviabilizando o processo — a dentista me explicou que o produto que eu usei era justamente o causador daquele desconforto.

Dois momentos, duas decisões tomadas na minha própria força, achando ser capaz de resolver a situação sozinho. Dois resultados que não apenas não resolveram, como também criaram novos problemas.

Isso me fez refletir: quantas vezes tentamos nos “consertar” com as ferramentas erradas? Será que existe outra forma de proceder?
Que atitudes eu preciso melhorar para colher os resultados desejados?
O que é possível fazer diferente? Pelo que sou responsável nessa situação?
O que posso aprender com isso? Qual é a melhor coisa a se fazer agora?

Recordo-me de um caso compartilhado por um colega, cuja identidade manterei em sigilo. Assim como eu, ele tentou sob sua própria força resolver suas próprias questões, questões estas mais sérias do que tratar os meus dentes. Esse estimado colega me confidenciou ser homossexual e não aceitar a si mesmo. Tentou relacionamentos que não eram autênticos ao seu ser, teve filhos. Assim como eu com meus dentes, ele usou o que tinha à mão: tentou se adaptar, forçar uma identidade e até mesmo silenciar quem era. Quando a dor da não aceitação ficou insuportável, ele recorreu a outro medicamente: o crack. Era uma solução que aparentava aliviar no momento, ou seja, era boa a curto prazo, porém essa medida só aprofundou o desgaste e potencializou a sensibilidade da “ferida” original.

Assim como eu com meus dentes, assim como este colega com sua tentativa de forçar uma vida — quantas vezes tentamos resolver na nossa força, no nosso tempo? Quantas vezes, diante daquilo que não conseguimos aceitar em nós mesmos, partimos para soluções que machucam ainda mais?

A dependência química muitas vezes começa assim: na tentativa de anestesiar uma dor de existência, de tapar um buraco de identidade, de fugir do espelho que nos devolve uma imagem que não conseguimos amar. A psicologia nos diz que, no fundo, nossos comportamentos são movidos por duas forças básicas: a busca pelo prazer e a fuga da dor. O que muitas vezes chamamos de “vício” é, na verdade, uma estratégia desesperada de fuga — uma tentativa errônea de administrar uma dor que parece insuportável. Mas como o carvão ativado nos dentes, essas soluções apenas desgastam. Como o remédio errado, apenas aumentam a sensibilidade.

Então, surgem os seguintes questionamentos: como sair desse ciclo? Como trocar a reação automática de fuga pela resposta consciente de cuidado? Que mudanças eu preciso realizar em mim mesmo? O que é possível fazer agora? Pelo que sou responsável nesta situação? O que posso aprender com isso? Qual é a melhor coisa a fazer agora? Como posso cuidar verdadeiramente dessa ferida?

A Bíblia conta uma história parecida no livro de Gênesis 16. Abrão e Sarai queriam um filho, mas Sarai era estéril. Em vez de esperar na promessa de Deus, Sarai tomou uma decisão por conta própria: deu sua serva Agar a Abrão, para que tivessem um filho por meio dela. Nasceu Ismael. O resultado? Conflito, angústia e uma família dividida. A solução humana criou um problema duradouro.

Aos que aqui estão, quero dizer: Deus não nos pede que sejamos perfeitos, apenas nos pede corações verdadeiros. Basicamente, o problema está em achar que precisamos ser ou fazer algo para sermos amados por Deus.

Entrega teus caminhos ao Senhor.
Entrega tua identidade, entrega-te de corpo e alma.
Entrega tuas tentativas falhas de ser quem os outros esperam.
Entrega teu vício, que foi só mais uma tentativa de curar a ferida da maneira errada.

Deus não está assustado com seus problemas, tão pouco está decepcionado com suas tentativas falhas. Ele só quer que você pare de tentar se consertar sozinho.

Em verdade vos digo: parem de mentir, primeiramente a vocês mesmos e depois aos outros.

Entregar nas mãos de Deus não significa mudar quem você é. Significa permitir que Ele cure a ferida de não se aceitar. Significa trocar seu próprio remédio pelo tratamento profissional do amor d’Ele.

Vocês todos estão aqui porque decidiram, num ato de coragem, parar de se automedicar com o que machuca. Pararam de achar que dão conta sozinhos. Estão entregando seus cuidados a quem sabe cuidar.

Que hoje a gente se lembre: Deus é o dentista da nossa alma. Ele não se assusta com as lascas, não se impressiona com as manchas, não rejeita nossa identidade verdadeira. Ele só pede que a gente se sente na cadeira e deixe Ele fazer o trabalho.

Não pela nossa força, mas pela graça dEle.
Não no nosso tempo, mas no tempo dEle.
Não com nossos remédios caseiros — nem de mentiras sobre quem somos — mas com o cuidado profissional dEle.

Porque quando a gente para de tentar resolver tudo sozinho —
Quando a gente para de tentar ser quem não é —
Quando a gente entrega até mesmo nossa identidade nas mãos dEle —
É aí que a verdadeira cura começa.

“Entrega o teu caminho ao Senhor; confia nele, e ele tudo fará.”
(Salmos 37:5)

Que esta entrega seja o início da cura mais profunda que você já experimentou.

Amém.

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