Muito Além do Caminho — Pelos Labirintos da Vida
“Reconhece-o em todos os teus caminhos, e ele endireitará as tuas veredas.”
(Provérbios 3:6)
Eu costumava acreditar que Deus agia apenas quando as coisas aconteciam da maneira que eu esperava.
Se um plano dava certo, agradecia.
Se um caminho se fechava, imaginava que algo havia saído do controle.
Com o tempo, descobri que Deus não depende dos caminhos que eu escolho. Muitas vezes, Ele me encontra justamente naqueles que eu jamais teria planejado.
Demorei para perceber isso.
Uma das primeiras vezes em que comecei a compreender essa verdade aconteceu por causa de um antigo colega de trabalho.
Seu nome era Álvaro.
Eu não gostava de algumas brincadeiras dele.
Trabalhamos juntos na Tecsis, uns quinze anos atrás. Não era mau, mas tinha o hábito de fazer brincadeiras. Entre elas, havia uma que eu achava de muito mau gosto:
— Quando você nasceu, não chorou. Sua mãe perguntou da palmada. O médico respondeu: “A palmada eu vou dar é na senhora.”
Ele ria.
Eu não.
Não era meu inimigo. Também não o odiava. Apenas mantinha certa distância.
O tempo passou.
Meu avô Abelardo havia saído com minha tia Elizabeth quando, de forma inesperada, caiu e quebrou o braço. Por isso, precisei resolver algumas questões relacionadas aos seus exames e fui até o Hospital Regional. Naquele dia, porém, cheguei mais tarde ao hospital do que pretendia. Por causa disso, não consegui resolver todas as questões relacionadas aos exames do meu avô e sabia que precisaria voltar na manhã seguinte.
Na volta, vi Álvaro pela primeira vez.
Ele me viu primeiro.
Abaixou o rosto, envergonhado.
— Tudo bem? — perguntei.
— Sim — respondeu.
Eu não insisti.
Fui embora.
No caminho, porém, algo começou a me incomodar.
Pela aparência, tive a impressão de que ele estava morando na rua. A roupa suja. O olhar cansado. Eu poderia ter perguntado mais. Poderia ter oferecido ajuda. Em vez disso, aceitei aquele “sim” e continuei andando.
Mais tarde, enviei uma mensagem para o meu amigo Vinicius pelo WhatsApp:
— Eu vi um cara que trabalhou comigo. Acho que ele está morando na rua. Perguntei se estava tudo bem, ele disse que sim, e eu fui embora. Fico pensando que eu poderia ter feito mais por ele.
Vinicius leu a mensagem.
Não respondeu.
Mas, às vezes, o silêncio também nos confronta.
Na manhã seguinte, voltei ao hospital.
Mais uma vez, meus planos não aconteceram como eu havia imaginado.
Horário diferente.
Caminho diferente.
E, para minha surpresa, lá estava Álvaro outra vez.
Dessa vez, não passei reto.
— Álvaro.
Ele tentou desviar o olhar.
Eu insisti.
— Você quer comer alguma coisa? Ou tomar um refrigerante?
Antes mesmo de responder, começou a chorar profundamente.
Esperei alguns instantes.
Quando conseguiu falar, contou que estava morando na rua havia três dias.
Que nunca tinha permanecido tanto tempo longe de casa.
Que era dependente de crack.
Que já não tinha forças para voltar.
Até que, entre uma frase e outra, disse algo que jamais esqueci:
— Você salvou a minha vida. A situação era impossível. Eu não tinha mais saída.
Naquele instante, eu já não enxergava o antigo colega de trabalho que fazia piadas de que eu não gostava.
Via apenas um homem esmagado pelo peso da própria história.
Então lhe fiz um convite simples:
— Vamos embora.
Ele aceitou.
Levei Álvaro até a minha casa, coloquei-o no carro e o conduzi de volta para a casa dele. Antes de ir embora, disse que voltaria para saber como ele estava.
Foi apenas posteriormente que o levei à igreja.
Mais tarde, conheci um pouco melhor o peso que Álvaro carregava. Ele havia enfrentado perdas profundas em sua família, entre elas a morte de dois filhos. Não sei em que momento as drogas entraram em sua história, nem seria justo reduzir sua dependência a uma única causa. Mas compreendi que, por trás daquele homem que eu julgara pelas brincadeiras, existiam dores que eu desconhecia.
Naquele dia, compreendi apenas parte do que havia acontecido.
Hoje ainda me pergunto por que precisei voltar ao hospital justamente na manhã seguinte.
Durante muito tempo, achei que a resposta para aquela pergunta estivesse apenas na história de Álvaro.
Como se Deus, por alguma razão especial, tivesse cruzado nossos caminhos uma segunda vez.
Anos depois, percebi que aquele não era um caso isolado.
Lembrei-me de um episódio da série Todo Mundo Odeia o Chris.
Chris queria apenas uma coisa: dinheiro para o show dos Fat Boys.
Aceitou trabalhar onde apareceu uma oportunidade: na funerária do Senhor Omar.
À primeira vista, parecia o caminho errado.
Enquanto Greg estava no show, ele passava o dia ao lado de uma mulher que acabara de perder o marido. Ela precisava desesperadamente de alguém que simplesmente permanecesse ali.
No fim, Chris perdeu aquilo que acreditava ser o grande acontecimento daquele dia.
Mas encontrou algo muito maior.
O episódio se encerra com a conclusão:
“No fim, eu não estava onde queria, mas estava exatamente onde precisava estar.”
Essa frase me fez perceber algo que vai muito além daquele episódio.
Quantas vezes medimos nossos dias apenas pelos lugares onde conseguimos chegar?
E quantas vezes Deus está mais interessado nos encontros que acontecem durante o caminho?
Talvez existam dias em que perder um compromisso seja exatamente a maneira pela qual Deus nos conduz ao compromisso que realmente importa.
Talvez eu ainda não tivesse encontrado todas as respostas. Mas começava a suspeitar de que a história de Álvaro não fosse uma exceção.
E se Deus realmente agisse dessa maneira?
Pouco tempo depois, outra história ampliou ainda mais a minha compreensão sobre os caminhos de Deus.
Meu tio Gabriel trabalha consertando máquinas industriais. Por causa da profissão, viaja com frequência para diferentes regiões do país.
Em uma dessas viagens, estava em Juazeiro do Norte, no Ceará.
O trabalho havia terminado.
O plano era simples.
Voltar para Sorocaba.
Mas o retorno não aconteceu.
Ao tentar embarcar no avião, a equipe da companhia aérea percebeu que ele não estava em condições de viajar.
Naquele momento, tudo aquilo parecia apenas um contratempo. Com o passar do tempo, passei a enxergar aqueles mesmos acontecimentos de uma forma completamente diferente.
Sua hérnia havia se rompido, comprometendo também o intestino e agravando problemas renais que já existiam.
Hoje, olhando para trás, percebo o quanto aquele retorno que não aconteceu pode ter preservado sua vida.
Enquanto tudo isso acontecia, minha tia Elisete precisou viajar às pressas para cuidar dele.
Eu e minha tia Elizabeth fomos buscá-la em casa e a levamos até o Aeroporto de Viracopos.
Confesso que, quando soube que Gabriel estava internado no Nordeste, meu primeiro pensamento foi de preocupação.
Imaginei que ali não encontraria a mesma estrutura hospitalar que temos no Sudeste.
Hoje reconheço que aquele pensamento dizia mais sobre os meus preconceitos do que sobre a realidade.
Descobri, pouco depois, que Juazeiro do Norte possui um hospital público de referência, preparado exatamente para situações como aquela.
Mas a história não termina aí.
Minha tia Elisete permaneceu praticamente vinte e quatro horas por dia ao lado dele.
O desgaste físico e emocional começou a aparecer.
Enquanto isso, minha tia Elizabeth comentou a situação com nossa prima Carla, que trabalha em um hospital em São Paulo. Por conhecer médicos que, por sua vez, tinham contatos na região, ela conseguiu indicar cuidadoras que passaram a auxiliar minha tia durante a internação.
Pela primeira vez em muitos dias, Elisete conseguiu descansar.
Durante esse intervalo, decidiu buscar orientação espiritual e entrou em uma igreja.
Ela nunca foi uma pessoa de frequentar missas regularmente.
Mesmo assim, sentou-se em um banco e permaneceu ali por alguns instantes.
Depois nos contou que parecia que o padre estava pregando exatamente para ela.
Naquele momento, comecei a enxergar toda a sequência de acontecimentos de uma forma diferente.
O retorno que não aconteceu.
O hospital que eu desconhecia.
Carla e os contatos que surgiram por meio dela.
As cuidadoras.
A igreja.
A mensagem.
Tudo parecia ocupar um lugar preciso dentro de uma história muito maior do que qualquer um de nós conseguia enxergar.
Quanto mais eu olhava para aquela história, mais difícil ficava acreditar que tudo aquilo fosse apenas uma mera sequência de coincidências.
Aos poucos, comecei a perceber que esse princípio atravessa toda a Bíblia.
Jonas acreditava que poderia fugir da presença de Deus.
Deus transformou um navio, uma tempestade e um grande peixe em instrumentos para reconduzi-lo ao propósito.
Jonas mudou de caminho várias vezes.
Deus não mudou de propósito nenhuma delas.
Saulo seguia para Damasco convencido de que cumpria uma missão.
Quando Deus quer encontrar alguém, até uma estrada comum se transforma em lugar de encontro.
Ele caminhava em uma direção. Deus já o esperava em outra.
Balaão também acreditava controlar o próprio caminho.
Até que Deus utilizou o instrumento mais improvável de toda aquela história.
Uma jumenta.
Aquele episódio sempre me faz pensar:
Se Deus foi capaz de usar uma jumenta para falar com Balaão, então o que Ele não seria capaz de usar para nos encontrar?
Uma conversa.
Um atraso.
Uma doença.
Um voo que não aconteceu.
Um aeroporto.
Uma internação.
Uma igreja.
Um antigo colega de trabalho.
Quando Deus decide encontrar alguém, qualquer caminho pode se transformar em um lugar de encontro.
Com o passar do tempo, compreendi que o problema nunca esteve nos caminhos.
Estava na forma como eu os interpretava.
Durante muito tempo, enxerguei desvios onde Deus enxergava direção.
Vi atrasos onde Deus preparava encontros.
Chamei de labirinto aquilo que, desde o princípio, já fazia parte de um caminho dirigido por Ele.
Passei a compreender por que, durante tantos anos, enxerguei apenas coincidências.
Eu observava cada acontecimento de forma isolada.
Álvaro.
Chris.
Gabriel.
Jonas.
Saulo.
Balaão.
Cada história parecia possuir uma explicação própria.
Mas, quando passei a contemplá-las em conjunto, um mesmo princípio começou a surgir diante dos meus olhos.
Todos eles acreditavam estar apenas seguindo um caminho.
Na verdade, Deus já havia preparado um encontro.
Álvaro imaginava que seu destino era permanecer nas ruas.
Chris acreditava que o dia terminaria em um show.
Gabriel queria apenas voltar para casa.
Jonas tentava fugir.
Saulo pensava perseguir cristãos.
Balaão seguia convencido de que sabia exatamente para onde estava indo.
Nenhum deles imaginava que Deus já os aguardava no caminho.
Foi somente depois de contemplar todas aquelas histórias em conjunto que compreendi algo que mudou completamente a forma como passei a interpretar a minha própria história.
Os labirintos da vida existem apenas para quem caminha por eles.
Para Deus, nunca houve labirinto.
Aquilo que para mim parecia uma sequência de desvios, perdas, atrasos e contratempos sempre fez parte de um caminho cuidadosamente conduzido por Ele.
Talvez seja exatamente por isso que tantas vezes nos desesperamos.
Queremos enxergar o mapa inteiro enquanto Deus nos convida a dar apenas o próximo passo.
Confiamos apenas quando entendemos.
Deus, porém, nos pede que caminhemos antes de compreender.
Hoje percebo que o verdadeiro milagre nunca foi encontrar a saída dos meus labirintos.
O verdadeiro milagre foi descobrir que Deus nunca deixou de caminhar comigo dentro deles.
Hoje compreendo que existem muitos caminhos pelos quais Deus pode nos conduzir.
Mas existe apenas um Caminho capaz de dar sentido a todos os outros.
Desde então, passei a olhar para a minha própria história de uma maneira diferente.
Ainda existem caminhos que eu não compreendo.
Ainda existem perguntas que permanecem sem resposta.
Ainda existem dias em que os acontecimentos parecem não fazer sentido.
Mas já não acredito que Deus tenha perdido o controle da história apenas porque eu não consigo enxergar a saída do labirinto.
Aprendi que a providência de Deus nem sempre nos livra de caminhar por lugares difíceis.
Muitas vezes, ela se manifesta justamente por nos conduzir através deles.
Hoje compreendo que alguns dos encontros mais importantes da minha vida aconteceram em caminhos que eu jamais teria escolhido.
Foi assim com Álvaro.
Foi assim com Gabriel.
Foi assim com Jonas.
Com Saulo.
Com Balaão.
E foi assim comigo.
Talvez você também esteja vivendo um desses caminhos neste exato momento.
Talvez esteja chamando de atraso aquilo que Deus está usando como preparação.
Talvez esteja chamando de perda aquilo que Deus transformará em encontro.
Talvez esteja chamando de labirinto um caminho que Deus conhece desde o princípio.
Por isso, antes de pedir que Deus mude a direção da sua caminhada, peça que Ele mude a maneira como você a enxerga.
Quando passamos a reconhecer Sua presença em nossos caminhos, até aquilo que chamávamos de labirinto começa a revelar um caminho que nunca deixou de estar sob Seus cuidados.
Existem muitos caminhos pelos quais Deus pode nos conduzir.
Mas existe apenas um Caminho capaz de dar sentido a todos eles.
“Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim.” (João 14:6)




