Quanto Tempo Dura uma Lágrima?

Quanto Tempo Dura uma Lágrima?

“Minhas lágrimas têm sido o meu alimento de dia e de noite…” (Salmos 42:3)

Em Jesus Chorou, os Racionais MC’s transformaram a lágrima em enigma: algo claro e salgado, pequeno o bastante para caber em um olho e, ao mesmo tempo, pesado como uma tonelada — inquilina da dor, morada predileta.

Quanto tempo dura uma lágrima?

Alguns segundos, talvez. Ela nasce nos olhos, percorre o rosto e desaparece. Podemos enxugá-la com as mãos, escondê-la de quem está por perto ou simplesmente deixá-la cair.

Mas será que essa é a melhor forma de se medir uma lágrima?

Algumas lágrimas eu aprendi cedo a esconder.

Meu avô morreu em 2001. Entre a morte dele e a da minha avó, que aconteceria em 2002, meu pai foi internado. Lembro-me da primeira vez que fui visitá-lo.

Depois daquela visita, chorei. Não durante alguns minutos. Não durante alguns dias. Durante aproximadamente quatro meses.
Eu chorava no banheiro, com o chuveiro aberto para ninguém ouvir. Chorava antes de dormir, com o travesseiro abafando o som da respiração entrecortada.

Havia lágrimas que começavam sem aviso, quando eu estava distraído, e eu as enxugava com raiva, como se apagar o rosto molhado apagasse também o que as provocava. Outras ficavam presas, ardendo atrás dos olhos, porque eu não podia deixá-las sair ali, na frente dos outros.

Talvez porque algumas dores não encontrem palavras que caibam nelas. Talvez porque a garganta feche antes das explicações possíveis. Talvez porque, quando ainda não sabemos o que fazer com aquilo que sentimos, aprendemos simplesmente a não deixar que os outros percebam.

As lágrimas desapareciam do meu rosto. A dor permanecia. Ela virou inquilina. Não estava de passagem. Morava em mim.

Anos depois, eu descobriria que algumas lágrimas podem continuar caindo muito tempo depois de nossos olhos parecerem secos. Porque há lágrimas que não deixam o rosto molhado. Elas deixam o corpo cansado, a garganta apertada, o silêncio pesado. Há lágrimas que fazem a alma sangrar. Elas caem para dentro. E, às vezes, continuam caindo por anos sem que ninguém perceba — nem mesmo quem chora.

Talvez mais do que os olhos. Talvez mais do que o rosto. Talvez mais do que a memória de quem a derramou.

Em 2026, uma parte significativa da minha renda vinha de precatórios. Não era um dinheiro eventual. Correspondia a aproximadamente sessenta a setenta por cento do que eu recebia e fazia parte da maneira como eu havia organizado minha vida. Até que foi cortado.

Não me lembro do dia exato, nem de como recebi a notícia. Lembro apenas da sensação de chão se abrindo sob os pés, como se o silêncio ao redor tivesse ficado mais denso de repente.

A explicação para aquilo, porém, não começava em 2026. Para compreendê-la, seria necessário voltar vinte e cinco anos.

Durante sua internação, meu pai possuía direito a rendimentos provenientes de aluguéis. A alegação apresentada anos depois era de que o custo para mantê-lo internado teria sido superior ao valor desses rendimentos.

Muitos anos depois, já no contexto do inventário, uma planilha transformaria aquela diferença em números e atribuiria ao meu pai uma dívida com o espólio. R$ 686 mil.

Entre os lançamentos daquela conta, havia de tudo. Até um bolo. E mensalidades de um clube que ficava a cerca de duzentos quilômetros da clínica onde meu pai estava internado — um clube que ele nunca frequentou durante aqueles anos, porque nunca houve intenção de retirá-lo de lá. Isso foi dito repetidamente. Mas a planilha não ouvia. Ela apenas somava.

Eu poderia transformar as próximas páginas numa discussão sobre cálculos, correção monetária, prescrição, documentos e interpretações jurídicas. Não é o que pretendo fazer. Este livro não é sobre isso.

O que importa para esta história é perceber como algo ocorrido décadas antes ainda conseguia alcançar o meu presente.

Uma morte em 2001. Uma internação. Meses de lágrimas escondidas. Outra morte em 2002. Anos de despesas. Uma planilha. Uma cobrança. E, vinte e cinco anos depois, eu.

Embora contestasse aquela cobrança e entendesse existirem questões jurídicas que deveriam ser consideradas, como a prescrição, aceitei, ainda assim, pagar os R$ 686 mil apresentados originalmente naquela planilha. Não foi suficiente.

Pretendia-se a cobrança do valor com correção monetária. Nas contas de quem apresentava a dívida, os R$ 686 mil se transformavam em aproximadamente R$ 2 milhões. Um número que parecia ter vida própria — crescia à distância, como se o tempo não apenas passasse, mas cobrasse juros sobre o próprio sofrimento.

E, em meio àquela situação, meus precatórios foram cortados.

Para mim, aquilo não representava apenas a perda de grande parte da minha renda. Eu sentia que estava sendo colocado contra a parede. A pressão financeira parecia uma maneira de me espremer até que o medo me levasse a tomar decisões que, em outras circunstâncias, eu não tomaria — e que poderiam contrariar meus próprios interesses.

Durante muito tempo, acreditei que o passado era um lugar onde as coisas ficavam. Naquele momento, descobri que ele também é uma força. Volta. Cobra. Bate à porta.

Talvez algumas lágrimas demorem mais do que imaginamos para terminar de cair.

Naquela época, eu cursava Educação Física.

Também trabalhava em clínicas de recuperação de dependentes químicos.

Quem percorrer as próximas páginas compreenderá que aquele trabalho havia se tornado muito maior do que uma profissão.

Eu havia encontrado propósito ali.

Entrei pensando que poderia ensinar alguma coisa e descobri que aprenderia muito mais do que ensinaria.

Conheci histórias de queda e recomeço.

Vi homens e mulheres lutando contra aquilo que, muitas vezes, o restante do mundo julgava sem compreender.

Aprendi que a dependência química é como um iceberg. Aproximadamente dez por cento é aquilo que conseguimos enxergar acima da superfície. Os outros noventa por cento permanecem submersos.

Com a dependência química, muitas vezes acontece algo semelhante. Aquilo que observamos é o uso das substâncias e suas severas consequências. Mas, abaixo da superfície, existe um universo muito mais difícil de mensurar: as causas, os traumas, as dores e as experiências vividas.

Quando atuei nas clínicas, conheci um aluno chamado Gabriel. Entre idas e vindas em uma das instituições em que eu trabalhava, ele me confidenciou que, depois de sair, logo em seu primeiro dia fora, sua mãe perguntou se ele queria fumar um pouco de maconha, porque aquilo o deixava mais tranquilo.

É difícil mensurar como cada pessoa reagiria a uma situação como aquela. Mas posso pensar a partir de mim. Se alguém da minha inteira confiança me oferecesse uma substância que talvez não me fizesse bem, ainda que essa pessoa estivesse cheia de boas intenções, de alguma forma aquilo me afetaria.

Em minha experiência nas clínicas, aprendi também que muitas histórias com as drogas começam de maneira quase inocente e recreativa. É só um pega. Só experimenta. Em algum momento, a curiosidade por novas sensações pode nos levar adiante, e aquilo que parecia apenas uma experiência pode assumir proporções que dificilmente seriam imaginadas no começo.

A canção Ilusão (Cracolândia) ilustra muito bem essa dinâmica.

Naquelas clínicas, ouvi histórias. Muitas histórias. Histórias de pessoas que me permitiram enxergar um pouco daquilo que existia abaixo da superfície.

Histórias sobre dependência.

Sobre recaídas.

Sobre família.

Sobre culpa.

Sobre esperança.

E, principalmente, sobre pessoas.

De alguma maneira, aquelas clínicas também estavam mudando minha forma de enxergar a própria vida.

Então perdi grande parte da minha renda.

Fiquei desgostoso. Cansado.

E, como costuma acontecer quando estamos fragilizados, aquilo que em outro momento talvez fosse apenas mais um problema encontrou em mim um terreno completamente diferente.

Dois alunos me desrespeitaram. Não foi somente aquilo. Hoje consigo perceber.

Foi aquilo somado a tudo. À preocupação financeira. À sensação de injustiça. Ao desgaste acumulado.

À impressão de que acontecimentos iniciados quando eu ainda era muito jovem continuavam decidindo partes da minha vida por mim.

Eu estava cansado. Pedi demissão das clínicas.

Depois, abandonei a faculdade de Educação Física.

Em pouco tempo, eu havia perdido grande parte da renda e me afastado de dois lugares que davam sentido aos meus dias.

Primeiro o dinheiro. Depois o trabalho. Depois a faculdade. E então parei.

Durante aproximadamente quinze dias, fiquei praticamente trancado dentro de casa.

Não queria fazer muita coisa.

Não queria encontrar muita gente.

Talvez estivesse tentando compreender como havia chegado até ali.

É curioso pensar nisso hoje.

Vinte e cinco anos haviam passado rapidamente quando eu os contava olhando para trás.

Quatro meses de lágrimas escondidas também haviam ficado distantes.

Mas aqueles quinze dias pareciam não passar.

Foi então que aquela pergunta começou a ganhar outro significado:

Quanto tempo dura uma lágrima?

Segundos?

Quatro meses?

Quinze dias?

Vinte e cinco anos?

Uma vida?

Talvez existam lágrimas que começam a cair muito antes de percebermos que estamos chorando.

Eu poderia olhar para aquele momento e dizer que tudo começou quando cortaram meus precatórios.

Mas não seria verdade.

Poderia dizer que começou quando deixei as clínicas.

Também não.

Quando abandonei a faculdade?

Não.

Aquela história parecia ter começado muito antes.

E foi justamente tentando descobrir onde começava minha dor que percebi algo desconfortável:

Eu sabia contar os anos, mas ainda não sabia medir a história.

Depois de aproximadamente quinze dias dentro de casa, decidi reagir.

Na segunda-feira, fui à academia.

Na terça, voltei.

Naquela mesma terça-feira, fui correr com a equipe do Miguel Sanches.

Talvez aquilo representasse alguma coisa para mim.

Sair de casa.

Voltar a me movimentar.

Encontrar pessoas.

Retomar, ainda que aos poucos, alguma parte da vida que eu havia interrompido.

Só que, durante a corrida, fui dar passagem para uma pessoa que vinha logo atrás, mais rápido que eu. Pisei em um buraco e torci o tornozelo.

Pode parecer pouco diante de tudo o que estava acontecendo.

Talvez fosse.

Mas há momentos em que um problema pequeno encontra alguém já carregando peso demais.

Eu havia decidido reagir.

E, na minha percepção naquele momento, até minha tentativa de reação parecia ter dado errado.

Então procurei outras maneiras de não sentir.

Comida.

Bebida alcoólica.

Não porque resolvessem alguma coisa.

Justamente porque, por algum tempo, ajudavam a não pensar nela.

A comida ocupava.

A bebida anestesiava.

E eu não precisava enfrentar, durante algumas horas, aquilo que continuava me esperando quando o efeito passava.

Fui ganhando peso.

Até chegar a 116,3 quilos.

O maior peso da minha vida.

Mas existe um problema com anestesias.

Elas não curam aquilo que tentamos não sentir.

Apenas adiam o encontro.

E, depois de algum tempo, aquilo que eu usava para não pensar começou a deixar de funcionar.

A comida já não escondia. A bebida já não silenciava.

Os problemas continuavam ali.

E eu também.

Talvez aquela fosse outra forma de chorar sem derramar lágrimas.

Nós somos fascinados pelo tempo.

Contamos aniversários, dias, anos, quanto tempo alguém viveu ou esteve conosco, quanto tempo estamos esperando, quanto tempo falta e quanto tempo já passou.

Talvez façamos isso porque o tempo é a régua que temos nas mãos.

Quatro meses parecem muito quando choramos escondidos. Quinze dias podem parecer uma eternidade quando não conseguimos sair de casa. Vinte e cinco anos parecem uma vida quando uma história antiga continua alcançando o presente.

Até mudarmos o referencial.

Foi então que percebi que talvez a pergunta estivesse errada.

Ou melhor, talvez eu estivesse tentando respondê-la usando a medida errada. Mas, afinal, quanto tempo dura uma lágrima?

Eu procurava a resposta no calendário. Deus me convidava a olhar para a eternidade.

Existe uma diferença entre tentar diminuir uma dor e mudar o referencial pelo qual a observamos.

Mudar o referencial não significa dizer que aquilo que aconteceu não doeu. Doeu. Não significa fingir que uma perda financeira não importa. Importa. Não significa dizer que abandonar um trabalho, interromper um sonho ou perder alguém que amamos seja algo pequeno. Não é.

Fé não é fingir que não estamos chorando. Talvez fé seja conseguir enxergar além da lágrima enquanto ela ainda percorre o rosto.

Durante muito tempo, enxerguei determinadas partes da minha história apenas a partir daqui. Daquilo que perdi. Do tempo que passou. Das pessoas que partiram. Das coisas que não compreendi. Das respostas que não chegaram quando eu queria.

Mas existe outro lugar de onde podemos olhar para a mesma história.

A eternidade.

E quando mudamos o ponto de observação, a dor não deixa de existir. Ela deixa de ser eterna.

Essa diferença muda tudo.

Vinte e cinco anos podem parecer uma eternidade quando estamos presos ao calendário. Mas vinte e cinco anos não são a eternidade. Nem oitenta. Nem noventa. Nem uma vida inteira.

Talvez uma das maiores mudanças de referencial que a fé possa nos proporcionar seja compreender que estamos tentando avaliar uma história eterna observando apenas um pequeno trecho dela.

Vemos o capítulo.
Deus conhece a história.

Vemos a despedida.
Deus conhece aquilo que existe além dela.

Vemos aquilo que terminou.
Deus conhece aquilo que ainda não conseguimos enxergar.

Talvez, então, a pergunta nunca tenha sido simplesmente quanto tempo uma lágrima consegue durar. Talvez a pergunta seja:

De onde você está olhando para ela?

Mas existe um perigo nessa maneira de pensar. Podemos confundir eternidade com indiferença. Podemos imaginar que, se existe algo maior depois daqui, então aquilo que sentimos agora não importa.

Jesus nos mostrou exatamente o contrário.

Os Evangelhos apresentam um Cristo profundamente atento à dor humana. Ele viu multidões cansadas e desamparadas e se compadeceu delas. Encontrou uma viúva acompanhando o corpo de seu único filho e, antes mesmo de qualquer milagre, o Evangelho registra sua compaixão.

Encontrou Marta e Maria vivendo o luto pela morte de Lázaro.

E chorou.

Isso sempre me impressionou.

Jesus sabia o que faria. Sabia que aquela sepultura seria aberta. Sabia que Lázaro voltaria a caminhar. Mesmo assim, diante da dor daquela família, Jesus chorou.

Conhecer o desfecho não tornou Jesus indiferente ao caminho.

A eternidade não anulou sua compaixão pelo sofrimento presente.

Talvez seja justamente por isso que não precisemos escolher entre duas verdades:

nossa dor importa agora, mas nossa dor não durará para sempre.

Quando Lázaro adoeceu, Marta e Maria mandaram avisar Jesus. Elas o conheciam. Jesus amava aquela família. Ainda assim, Ele não chegou quando elas esperavam.

Lázaro morreu.

Quando finalmente encontrou Jesus, Marta pronunciou uma frase que atravessaria séculos porque talvez traduza uma das perguntas mais humanas dirigidas a Deus:

“Senhor, se estivesses aqui…”

Quantas vezes completamos essa frase?

Se o Senhor estivesse aqui, isso não teria acontecido. Se estivesse olhando para mim, teria impedido. Se realmente se importasse, já teria respondido.

Nós costumamos medir a presença de Deus pela velocidade de sua resposta.

E talvez esse seja um dos nossos maiores enganos.

Jesus estava atrasado apenas no relógio de Marta.

Sua demora não significava falta de amor. Seu silêncio não significava indiferença.

Talvez eu também tenha olhado algumas vezes para a minha história e pensado:

“Senhor, se estivesses aqui…”

Se estivesse aqui, meu pai não teria passado por tudo aquilo. Se estivesse aqui, talvez algumas perdas não tivessem acontecido. Se estivesse aqui, aquela história não teria atravessado vinte e cinco anos. Se estivesse aqui, eu não estaria tentando encontrar na comida e na bebida uma maneira de fugir de mim mesmo.

Mas talvez eu estivesse fazendo a pergunta errada outra vez.

Não porque minha dor não fosse legítima, mas porque eu estava tentando medir a presença de Deus usando o meu relógio.

Isso não significa que todas as nossas histórias terminarão como a de Lázaro.

Nem toda doença terminará em cura nesta vida. Nem toda perda será restituída aqui. Nem toda injustiça será reparada no momento em que desejamos. Nem toda oração receberá a resposta que imaginamos.

A esperança cristã seria pequena demais se dependesse disso.

Porque, se nossa fé estiver condicionada a receber de Deus exatamente o desfecho que esperamos, não estaremos confiando em Deus.

Estaremos confiando no desfecho.

A perspectiva da eternidade nos oferece algo maior.

Ela não promete ausência de lágrimas — o próprio Jesus chorou.

Ela promete que as lágrimas não terão a palavra final.

Talvez seja por isso que Jesus possa ser, ao mesmo tempo, aquele que chora conosco e aquele que nos ensina a não viver como se a lágrima fosse eterna.

Ele conhece o que sentimos aqui. E conhece aquilo que existe além daqui.

Eu não sei qual lágrima você carrega enquanto lê estas páginas.

Talvez ela tenha começado hoje. Talvez você nem consiga mais identificar quando começou, ou talvez ninguém sequer saiba que você está chorando.

Eu conheço um pouco desse lugar.

Durante meses, minhas lágrimas caíram escondidas. Décadas depois, descobri que esconder uma lágrima não significa necessariamente que ela terminou de cair. Talvez você esteja esperando uma resposta. Uma cura. Uma reconciliação. Uma oportunidade. Justiça. Talvez esteja cansado de esperar, mas uma página dolorosa não significa que a história terminou. E talvez essa seja uma das coisas mais difíceis de acreditar quando ainda estamos dentro dela.

Naqueles dias, eu também não conseguia enxergar tudo isso com a clareza com que consigo escrever hoje.

Eu estava cansado. Machucado. Desanimado.

Tentei parar. Depois tentei reagir.

Quando aquela tentativa também pareceu fracassar, tentei me anestesiar. E até mesmo a anestesia deixou de funcionar.

Eu ainda não sabia o que aconteceria depois. Não sabia que chegar a 116,3 quilos não seria a última medida que eu faria da minha vida. Não sabia que aquele tornozelo machucado não determinaria até onde eu ainda poderia caminhar. Não sabia que aqueles quinze dias dentro de casa não representavam necessariamente o fim de uma história. Mas essa é outra história.

Por enquanto, basta saber que passei muito tempo tentando descobrir quanto poderia durar uma lágrima. Hoje já não tenho tanta certeza de que ela deva ser medida assim. Talvez eu estivesse usando a régua errada desde o começo.

Eu contava o tempo. Deus falava de eternidade. E mudar o referencial talvez seja também compreender que a dor pode ocupar um capítulo inteiro sem ocupar a história inteira.

Uma lágrima pode atravessar anos sem atravessar a eternidade. Porque o mesmo Jesus que chorou diante da dor humana nos revelou o coração de um Pai que não permanecerá para sempre apenas observando seus filhos chorarem.

Existe um dia além dos nossos calendários. Além dos nossos atrasos. Além das nossas perdas. Além das perguntas que ficaram sem resposta. Um dia em que não precisaremos mais perguntar quanto tempo dura uma lágrima. Porque não haverá outra para contar o tempo.

E talvez essa seja a maior mudança de referencial que podemos fazer: olhar para uma dor que parece não ter fim a partir da única perspectiva na qual sabemos que ela terá.

A eternidade.

“Ele enxugará dos seus olhos toda lágrima. Não haverá mais morte, nem tristeza, nem choro, nem dor, pois a antiga ordem já passou.” (Apocalipse 21:4)

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