O Tempo da Liberdade
“O coração do homem planeja o seu caminho, mas o Senhor lhe dirige os passos.”
(Provérbios 16:9)
Honestamente, não me lembro se fazia sol naquela sexta-feira. O que ficou gravado em mim não foi o clima, foi a atmosfera. A alegria do David chegou junto com ele — daquelas que contagiam sem precisar de anúncio. Ele dizia que, naquele mesmo dia, voltaria para casa. Não era o alívio tenso de quem contava os dias como um preso; era a euforia radiante de quem acreditava que a vida finalmente lhe devolveria algo.
Entre tantos alunos que passaram pelas clínicas, David e Murilo ocupam um lugar especial na minha memória afetiva. Eram respeitosos, participativos e entenderam rapidamente por que eu estava ali. Nunca senti que me enxergavam apenas como o professor de educação física. Percebiam que minha intenção era contribuir de alguma forma para a caminhada deles. Em alguns momentos, o próprio David verbalizava isso. Dizia que minhas motivações não eram financeiras, mas movidas pelo desejo genuíno de ajudar. Sinceramente, não existe quantia no mundo que pague esse reconhecimento. Trabalhar nas clínicas me ajudou a cicatrizar feridas antigas — daquelas que começaram muito antes da morte do meu pai, quando eu ainda era menino e já assistia, impotente, à bebida e às drogas roubarem dele a presença que eu tanto precisava. Depois que ele partiu, a dor só aumentou. E talvez eles nunca tenham imaginado o quanto também estavam me ajudando.
Naquele dia, jogamos bola, rimos, demos apelidos uns aos outros. Apelidos que talvez não caibam no tom deste texto, mas que, na época, eram apenas o reflexo de uma descontração genuína. Alegrei-me com ele como quem celebra uma vitória. Só depois entendi que o jogo ainda não havia terminado.
Uma hora por semana era o meu canudo. Eu via o azul, via o movimento, mas o oceano era muito maior do que aquilo que eu conseguia enxergar. Acreditei que aquela alegria era sinônimo de prontidão. Minha ingenuidade não estava em confiar na felicidade do David, mas em acreditar que felicidade e preparo eram a mesma coisa.
Na sexta-feira seguinte, voltei e o encontrei lá. Fiquei incrédulo. A primeira coisa que perguntei foi se realmente era verdade que ele tinha ido embora. Ele estava cabisbaixo, os ombros caídos, o brilho do olhar substituído por uma névoa de cansaço e vergonha.
— Aguentei só três dias na rua.
Três dias. Foi o tempo que a vida precisou para mostrar a ele que o chão que ele pensava ter debaixo dos pés era, na verdade, areia movediça.
Mas a revolta não veio imediatamente. Ela foi fermentando. Lembro que, na semana anterior ao Natal, ele me pediu: “Dá uma aula bem pesada para a gente ficar bem cansado, porque vai estar todo mundo triste por ter passado o Natal sem a família.” Na hora, achei que fosse um pedido generoso para distrair a turma. Depois, refletindo, entendi a confissão disfarçada. Ele não queria apenas cansaço; queria anestesia. Queria silenciar uma dor que não sabia — ou não queria — nomear.
Quando voltei após o Natal, ele mal participou da aula. Soube então que havia tentado fugir. Ao tentar pular o muro, foi confrontado com circunstâncias muito duras. Dias depois, ainda carregava no corpo e na alma as marcas daquela tentativa.
David estava revoltado. Quando conversamos, despejou sua indignação: aquilo ali não era para recuperar ninguém, era uma empresa que só pensava em lucro. Ele relatou as dificuldades, as injustiças, o abandono. Eu ouvi. Sempre procurei ouvir. Aprendi nas clínicas que antes de ganhar o aluno, eu precisava ganhar a pessoa.
Lembrei-me do Sr. Edson, um senhor que não gostava de atividade física. Tentei várias abordagens, todas em vão. Até que um dia levei um tabuleiro de damas, entreguei nas mãos dele e disse: “Seu Edson, percebi que o senhor não gosta muito de atividade física, mas trouxe esse tabuleiro para o senhor jogar.” Ele me olhou e respondeu: “Obrigado por lembrar de mim.”
O David, como a maioria dos alunos, percebia que meu atendimento era humanizado. Eles sabiam que eu não estava ali apenas para cumprir horário. E, sinceramente, com uma amostragem tão pequena, seria pretensioso da minha parte questionar a percepção que ele tinha daquele lugar. Mas havia algo que eu conseguia enxergar: aquele sentimento de injustiça estava tornando os dias dele mais dolorosos. E eu queria, de alguma forma, ajudá-lo a sair dali. Não da clínica — mas da prisão interna que ele mesmo ainda não conseguia ver. A saída possível, na minha visão, passava por algo que ele talvez ainda não tivesse experimentado: olhar para dentro. O exterior ele não controlava. O interior, ninguém poderia mudar por ele.
Meses depois, já fora das clínicas, mandei uma mensagem para o terapeuta Mota perguntando como estavam o David e o Murilo. Ele me respondeu com a voz embargada: soube depois que a família, acreditando que ele estava pronto, decidiu que era o momento de David sair. Duas semanas depois, ele veio a falecer.
A notícia não me deixou apenas triste. Ela funcionou como um catalisador — obrigou-me a olhar para mim mesmo de uma forma que eu ainda não tinha feito, ou pelo menos não a partir daquele referencial.
Não sei exatamente o que Deus via no David que talvez ele mesmo ainda não enxergasse. Não tenho respostas prontas. Mas sua história se tornou para mim uma ilustração viva de algo que venho pensando há tempos: às vezes Deus não pode nos abençoar com o que pedimos, porque aquela bênção nos arruinaria.
Para ele, a liberdade estava do outro lado do portão. E eu, acreditando ser o melhor, torci por ele. Deus talvez estivesse vendo o que eu não via. Ao permitir que ele voltasse para a clínica, poderia estar lhe dando mais tempo, mais preparo, mais uma oportunidade. Só que David não conseguia ver aquilo como proteção. Ele via como prisão.
Nunca saberei tudo o que Deus fez na vida dele. Mas creio saber o que Ele fez na minha: aquela notícia mudou a forma como passei a enxergar as portas que se fecham diante de mim.
Tudo aquilo me levou a compreender uma diferença que eu nunca havia percebido com tanta clareza: a diferença entre estar livre e ser livre.
Até então, eu também acreditava que liberdade era sinônimo de portas abertas, de poder ir e vir, de não ter ninguém ditando regras. Mas a morte dele plantou uma pergunta que me acompanhou enquanto escrevia sobre esse tema.
Estar livre tem a ver com geografia. É não ter muros. Não ter grades. Não ter horários. É poder fazer o que quisermos, quando quisermos.
Ser livre, porém, tem a ver com governo. Depende de quem está no controle do nosso coração. É ser capaz de direcionar os próprios pensamentos e desejos, independente de onde estejamos.
Mas será que fazer o que queremos é sempre o melhor caminho? Será que a ausência de limites externos garante a verdadeira liberdade?
Ele estava livre na rua, mas será que era de fato livre? Será que seus desejos ainda o governavam? Que impacto as companhias tinham sobre ele? Ele saiu do muro, mas os muros dentro dele continuavam de pé. Será que algum dia cairiam?
Essa distinção serve para todo ser humano. Alguém pode estar financeiramente estável e continuar escravo da ganância. Pode estar em um relacionamento e continuar escravo da carência. Pode estar com a vida resolvida e continuar escravo da ansiedade. A geografia não garante a liberdade. O que garante é o que escolhemos cultivar no nosso interior.
Foi essa a reflexão que tentei compartilhar com ele naquela conversa. Diante do sofrimento, existem dois caminhos possíveis.
Um deles é continuar perguntando: De quem é a culpa? Por que isso aconteceu comigo? O que há de errado com eles? — o caminho do crítico.
O outro é começar a perguntar: O que essa situação pode me ensinar? O que está sob minha responsabilidade? Qual é o próximo passo que posso dar? — o caminho do aprendiz.
Percebi que, naquele momento, ele estava preso à postura do crítico, e por isso lhe apresentei uma ferramenta que ilustra exatamente esses dois caminhos: um que leva à estagnação e outro que conduz ao crescimento, ainda que doloroso. Trata-se do Mapa das Escolhas, que eu conhecia por meio do livro Faça as perguntas certas e viva melhor. Comprei o livro e emprestei a ele, na esperança de que pudesse enxergar que ainda havia algo ao seu alcance: decidir onde focar a sua atenção.
Sempre enxerguei essa ferramenta como algo útil. Tentei e sigo tentando aplicá-la em mim. Confesso: é desafiador aprender a clamar em vez de reclamar. A postura do crítico é sedutora — ela nos dá a ilusão de que estamos certos. A do aprendiz exige algo mais difícil: humildade. Percebi que essa talvez seja a lição mais importante que eu também preciso praticar.
Enquanto escrevo este capítulo, vivo um impasse que se arrasta há anos — e que vem se agravando. O inventário do meu avô permanece sem desfecho, e há dias em que me sinto preso a essa espera, como se minha vida estivesse suspensa por um fio que não se rompe, mas também não se move.
Durante muito tempo, olhei para essa situação com as lentes do crítico. Por que demora tanto? O que está impedindo? Por que isso foi acontecer logo comigo? A revolta, silenciosa ou declarada, ocupava um espaço que eu nem sempre admitia. Eu quero uma solução. Peço a Deus, com frequência, que encerre esse longo e doloroso processo. Imagino que, quando tudo se resolver, eu finalmente serei livre.
Foi então que comecei a fazer perguntas diferentes.
Será que o fato de esse inventário ainda não ter terminado também pode ser uma forma de proteção? Será que, se eu tivesse todos os recursos à minha disposição agora, não os usaria de um modo que ainda não estou preparado para administrar? Não se trata de afirmar que Deus está atrasando algo de propósito — eu não tenho como saber isso. Trata-se de reconhecer que toda essa história me ensinou a desconfiar da pressa com que às vezes peço portas abertas.
A postura do crítico era sedutora — ela me dava a ilusão de que o problema estava inteiramente fora de mim. A postura do aprendiz, por outro lado, me convidou a olhar para dentro e perguntar: O que Deus ainda está formando em mim enquanto essa porta permanece fechada?
Não tenho a resposta. Mas tenho uma nova ótica. E isso, para mim, já é parte do processo.
Enquanto refletia sobre tudo isso, lembrei-me de uma história antiga. Dessa vez, porém, a compreendi de um jeito novo.
A Bíblia conta a história de um filho que acreditou que a liberdade estava longe da casa do pai. Ele pediu sua herança antecipada — queria sair, ter autonomia, viver segundo as próprias vontades.
O pai o deixou ir.
O filho recebeu exatamente o que desejava. Gastou tudo, perdeu tudo, e acabou desejando a comida dos porcos. Ele não saiu de casa procurando pecado; saiu procurando liberdade. Só descobriu tarde demais que independência e liberdade são coisas completamente diferentes. Havia saído da casa do pai, mas continuava preso dentro de si mesmo.
A parábola não termina aí — há redenção, há volta, há abraço. Mas a parte que ecoa em mim quando penso no David é justamente o momento em que o filho acreditou que a verdadeira vida começava quando atravessasse o portão.
Este capítulo não termina com uma resposta pronta, mas com um convite.
Tudo o que vivi naquela história me revelou que as portas fechadas podem ser proteção, e não castigo. Mostrou que a liberdade pela qual clamamos talvez exija uma maturidade que ainda não temos. E deixou claro que, enquanto eu tentava ajudá-lo a olhar para dentro de si, Deus estava preparando a mesma lição para mim.
Deus não está interessado apenas em nos colocar em um lugar de liberdade. Ele está interessado em formar pessoas livres. E isso leva tempo.
A pergunta, portanto, não é apenas:
Quando essa porta vai se abrir?
A pergunta que fica — inquietante e salvadora — é:
Quem eu estou me tornando enquanto ela permanece fechada?
“Há caminho que ao homem parece direito, mas ao fim conduz à morte.”
(Provérbios 16:25)




