Firme sua Identidade — A posição que Deus vê

Firme sua Identidade — A posição que Deus vê

“Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo.”
(2 Coríntios 5:17)


Nas sextas-feiras, eu costumava ir para a clínica ouvindo louvores ou mensagens disponíveis no YouTube. Foi em uma dessas manhãs, enquanto dirigia pela estrada, que ouvi uma palavra do pastor Deive Leonardo intitulada “Plano de Deus com Você”.

Durante aquela mensagem, uma reflexão chamou minha atenção: muitas vezes, enxergamos determinadas situações como se fossem definitivas, quando, na verdade, estamos olhando para elas a partir de uma perspectiva limitada.

Aquela ideia me fez lembrar da importância do referencial. O mesmo acontecimento pode produzir conclusões diferentes dependendo do olhar de quem observa. Às vezes, não encontramos novas possibilidades porque permanecemos presos ao ângulo pelo qual interpretamos aquilo que estamos vivendo.

Naquele período, eu já utilizava uma atividade chamada Forme os Números nas aulas das clínicas. Era uma dinâmica que trabalhava movimento, raciocínio e cooperação entre os alunos.

A atividade já existia, mas aquela mensagem me fez enxergar uma nova possibilidade de aplicação para ela. Comecei a pensar que ela poderia carregar um significado maior do que apenas uma proposta física. Talvez pudesse se transformar em uma experiência capaz de ensinar antes mesmo que qualquer palavra fosse dita.

Eu queria que os alunos não apenas ouvissem sobre mudança de perspectiva, mas que pudessem vivenciar isso na prática. Que experimentassem algo primeiro e, somente depois, compreendessem a mensagem que aquela experiência carregava.

Foi então que decidi adaptar a atividade.

Eu já havia aplicado aquela atividade algumas vezes. Para realizá-la, preparei números impressos de 0 a 9, com duas unidades de cada algarismo. Dividi os alunos em duas equipes e me posicionei ao centro, mantendo a mesma distância entre os grupos.

A dinâmica funcionava da seguinte maneira: eu dizia uma sequência de números, e cada equipe precisava se organizar para formá-la utilizando os próprios integrantes. Em seguida, deveriam correr até mim mantendo aquela formação.


A atividade parecia simples, mas exigia muito mais do que velocidade. Eles precisavam se comunicar, tomar decisões rapidamente e trabalhar em conjunto para alcançar o objetivo.

Naquele dia, porém, eu tinha uma intenção diferente. A dinâmica seria a mesma, mas os números que eu havia escolhido carregavam um propósito que eles ainda não conheciam.

Comecei a atividade normalmente. As equipes se organizavam, formavam os números e corriam até mim tentando chegar primeiro. A cada rodada, eu observava a comunicação entre eles, as estratégias que criavam e a maneira como encontravam soluções em conjunto.

Em determinado momento, pedi que formassem o número 69.

Eles rapidamente se organizaram. Cada equipe encontrou uma maneira de representar os algarismos e veio até mim com a formação correta.

Algum tempo depois, sem revelar o motivo, fiz um novo pedido:

— Formem o número 99.

Mas como formar o número 99 se cada equipe possuía apenas um 9 disponível?

Mas aconteceu algo que me surpreendeu.

Nas duas clínicas em que apliquei a atividade naquele período — o CT Semelhança e o CT Luz Recanto Esperança — os alunos conseguiram realizar a tarefa.

Eles encontraram a solução.

O que antes era apenas um 6 revelou, sob uma nova perspectiva, um 9.

Percebi que o problema nunca foi o número. Era a posição a partir da qual ele estava sendo observado. E, nas mãos de Deus, a posição pode mudar.

A mesma peça que antes parecia representar apenas um número revelou uma possibilidade que antes permanecia escondida.

Aquela experiência me fez lembrar da mensagem que havia ouvido dias antes. A atividade não era apenas sobre formar números; ela carregava uma reflexão sobre a maneira como interpretamos aquilo que está diante de nós.

Muitas vezes, fazemos isso com a nossa própria história. Olhamos para erros, limitações, fracassos e momentos difíceis e permitimos que eles definam quem somos. Passamos a acreditar que a imagem que temos de nós mesmos é a única possível.

Mas Deus enxerga além daquilo que conseguimos ver. Ele não observa apenas o momento atual, a queda ou a circunstância que parece definitiva. Ele conhece possibilidades que ainda não conseguimos perceber.

Assim como aquele número precisou ser reposicionado para revelar algo novo, talvez algumas áreas da nossa vida também precisem ser vistas a partir de uma nova perspectiva.

Mas o objetivo não é apenas enxergar diferente. É descobrir quem somos quando Deus nos olha.

Não se trata de negar o que aconteceu, mas de permitir que Ele revele um significado maior para aquilo que parecia ser apenas uma limitação.

Essa experiência também me fez lembrar da história de Jacó.

Durante grande parte da sua trajetória, Jacó carregou uma identidade marcada pelo seu passado. Seu próprio nome estava associado àquele que segura o calcanhar, ao homem das estratégias e das escolhas que nem sempre revelavam aquilo que Deus havia planejado para ele.

Se olharmos apenas para sua história até aquele momento, poderíamos defini-lo pelos seus erros, pelas suas escolhas e pelas marcas que carregava.

Mas a história de Jacó não terminou ali.

A transformação não aconteceu porque seu passado foi apagado. Ele continuava sendo o mesmo homem, com suas experiências, suas marcas e tudo aquilo que havia vivido. O que mudou foi a identidade que Deus passou a afirmar sobre ele.

Essa talvez seja uma das maiores dificuldades que enfrentamos. Muitas vezes permitimos que nossos erros, nossas dores e nossas limitações definam quem somos.

Deus, porém, não nos resume ao nosso passado. Ele nos chama para uma identidade que vai além das marcas que carregamos e da imagem que construímos sobre nós mesmos.

Assim como aquele 6 não precisou ser descartado para revelar um 9, Jacó não precisou deixar de existir para se tornar Israel. Nada foi substituído. Tudo foi reposicionado.

“E disse: Já não te chamarás Jacó, mas Israel; pois como príncipe lutaste com Deus e com os homens, e prevaleceste.”
(Gênesis 32:28)

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