A História que Poderia Ser Diferente — A máquina do tempo da culpa
“Por causa da ferradura, perdeu-se o cavalo;
por causa do cavalo, perdeu-se a batalha;
por causa da batalha, perdeu-se a guerra.”
(Provérbio chinês, adaptado)
Existe um tipo de pensamento que não faz barulho.
Ele não grita.
Ele não interrompe o dia.
Ele apenas volta — em silêncio — quando tudo parece estar em ordem.
“E se…”
Foi assim que muitas das minhas noites já começaram.
Durante muito tempo, acreditei que a dor nascia de um único acontecimento. Bastaria voltar ao ponto onde tudo começou, corrigir uma decisão e, então, toda a história seguiria um rumo diferente. Eu ainda não compreendia que, assim como no antigo provérbio, aquilo que parecia ser a causa podia, na verdade, ser apenas mais um elo de uma cadeia muito maior.
Na minha história, esse elo sempre pareceu ter um dia e um lugar muito específicos.
Eu ia toda semana com ele.
Ele morreu justo na semana em que eu não fui.
Eu tinha 10 anos.
A semana em que decidi não acompanhar meu avô ao sítio.
Ele foi sozinho.
Atravessava a Rodovia Raposo Tavares quando foi atropelado.
Morreu.
A pergunta que não calava:
— E se eu tivesse ido?
Anos depois, ainda menino, escrevi isto:
*Dr. Claudio C. M. de Araujo*
Um amor mais do que materno,
um carinho mais do que eterno.
Você significava o que jamais
alguém poderá significar.
Você modificou o verbo amar!
Eu não amarei ninguém como eu te amei.
Não admirarei ninguém
como eu te admirei.
Você era para mim simplesmente tudo,
meu mundo, meu lugar seguro, meu chão.
Não sei até quando vai sangrar o meu coração.
Eu não queria que você tivesse ido embora
sem ter dito o quanto você era importante.
Sem ter dito o quanto você era amado,
sem poder ter ao menos te abraçado.
Ao me ver, o senhor
se tornava uma criança. Isso me fazia tão bem!
Momentos de amor.
Será que eu era merecedor de tais expectativas?
Os momentos agora são de dor.
Só me resta dizer amém!
(2005)
Eu não sabia, naquela época, que aquela dor ainda percorreria um longo caminho dentro de mim. Antes de se transformar em culpa, ela precisaria atravessar o difícil processo de aprender a aceitar uma ausência que, por muitos anos, me pareceu impossível de suportar.
Quando a dor é grande demais, a mente começa a imaginar outras versões da mesma história.
Eu já assisti a tantas histórias de heróis que voltam ao passado para consertar algo. E sabe o que sempre acontece? A situação piora. Sempre. O herói arruma uma coisa e estraga outra. O Flash volta no tempo para salvar a mãe e desencadeia um caos ainda maior.
Talvez porque o passado não seja uma linha.
É uma teia.
E puxar um fio desfaz tudo.
Quando sofremos, quase sempre imaginamos que a solução está em encontrar o momento exato em que tudo deu errado. Como se bastasse alterar um único acontecimento para que toda a história fosse diferente.
Eu, quando mais jovem, fui ainda mais longe nessa fantasia.
Escrevi um texto, anos atrás — um desabafo que nunca imaginei que se tornaria parte de um livro. Chamei-o de:
*Se eu fosse um herói — Uma Homenagem Blasfemada*
Se por um dia Deus me desse o poder de escolher entre ser ou realizar qualquer coisa, eu escolheria ser o Barry Allen (The Flash).
Ah, como eu o invejo. A habilidade de poder voltar no tempo me seduz; eu pagaria qualquer preço e assumiria qualquer consequência para tê-la.
Deus perdoe as minhas blasfêmias, por favor…
Com o meu “direito adquirido”, eu voltaria no tempo, mais especificamente para o dia que meus pais se conheceram, tomando as medidas cabíveis para cancelar o evento.
Duas das três pessoas mais preciosas que eu conheci, meu pai e meu avô, Clóvis e Cláudio, eu não mais os conheceria.
(13/02/2017)
Perceba o nível da culpa:
Eu não queria apenas voltar para salvar meu avô.
Eu queria voltar para impedir que eu mesmo nascesse.
Porque, no fundo, aquela era a solução extrema.
Se eu não existisse, não haveria dor.
Mas eu não percebia que isso também apagaria tudo aquilo que deu sentido à dor.
Mas esse texto antigo termina com uma virada que, na época, eu nem percebia como profética:
Apesar de um texto controverso e repleto de hipérboles difíceis de interpretar, se eu pudesse escolher não mais viver esse sofrimento, eu prontamente recusaria, pois cada olhar, cada beijo, cada abraço, cada sorriso, cada palavra de amor e carinho, cada forma de entoar a voz, fizeram eu me sentir a pessoa mais especial do universo inteiro. E mais do que isso, fizeram tudo valer a pena.
O homem que queria se apagar do mundo, no final do mesmo texto, descobriu que não trocaria a dor pelas pessoas que amou.
Naquele momento, eu ainda não tinha encontrado a resposta para a culpa. Mas, sem perceber, começava a abandonar uma convicção que me acompanhara por anos: a de que uma história sem dor seria, necessariamente, uma história melhor.
Pela primeira vez, eu admitia que, por mais profundo que tivesse sido o sofrimento, existiam acontecimentos que eu jamais desejaria apagar, porque eles também haviam sido responsáveis pelos maiores gestos de amor que experimentei.
Eu ainda não sabia, mas aquela pequena mudança de percepção preparava o caminho para uma descoberta muito maior: talvez o verdadeiro problema nunca tivesse sido a história que eu vivi.
Foi então que me lembrei de outro texto, escrito anos depois.
*Herança*
Eu sou rico, milionário.
Tenho muitas coisas que o dinheiro não pode comprar.
Só o fato de você me amar,
já faz com que eu me sinta um bilionário.
O mais importante da minha herança,
eu jamais me esqueço.
Minha melhor lembrança
é saber que seu afeto não tem preço.
Herdei seu jeito, sua expressão.
Meu coração.
Somos muito parecidos.
Alguns amados jamais serão esquecidos!
Eu realmente acho que eu tenho um dom.
Que desenvolvi de maneira inexplicável.
Uma argumentação memorável.
Que eu acredito ter seu tom.
Enfim, mais um ano se passou
e você não está comigo.
Queria lhe prestar essa homenagem.
(2011)
Hoje consigo perceber algo que o menino de 2005 ainda não conseguia enxergar. A ausência continuava doendo, mas já não ocupava todo o espaço. Aos poucos, a saudade começava a dividir lugar com a gratidão.
Foi então que percebi que o amadurecimento não acontece em linha reta.
Algumas feridas parecem cicatrizar. Outras permanecem em silêncio durante anos, até que uma nova dor as faça sangrar novamente.
A morte do meu pai teve exatamente esse efeito. Ela não substituiu a dor da perda do meu avô. Trouxe-a de volta. E, por algum tempo, senti como se todas aquelas emoções estivessem acontecendo outra vez.
Anos depois, em outubro de 2019, escrevi um texto sem imaginar que ele registrava o início de uma nova etapa dessa caminhada.
*Pensamentos Aleatórios — Equilibre suas emoções*
Tenho vivido uma fase onde pouco me reconheço. Se outrora eu queria gritar ao mundo as minhas verdades, agora tenho vivido sob convicções silenciosas. Elas têm influenciado em diversas áreas da minha vida, fazendo-me, por exemplo, ficar escasso em textos e postagens, bem como em conselhos dados e discussões evitadas.
Talvez antes eu quisesse ser ou provar algo. Ao tentar discutir, de certa forma, existia uma incerteza ou insegurança intrínseca; agora não mais, pois já o sou. Talvez hoje eu tenha uma melhor compreensão da vida e do mundo e entenda que cada um faz o melhor que pode com aquilo que possui, porém sempre de acordo com as próprias experiências vividas. Talvez hoje eu entenda que a única coisa imutável na vida é estarmos em constantes mudanças. Talvez hoje eu perceba que não existem verdades absolutas, pois novas experiências nos amoldam em outras direções. Talvez hoje eu não apenas saiba, mas também tenha vivido e sentido que a sabedoria é encontrada nas dúvidas, pois buscando achareis. Talvez hoje eu sinta que o que é verdade hoje pode deixar de ser verdade amanhã. Talvez hoje eu não só diga belas palavras, mas também viva aquilo que prego. Talvez o pouco de sabedoria adquirida ao longo dos meus anos tenha feito-me perceber que ainda tenho muito a aprender. Talvez hoje eu perceba que devo mudar de acordo com as circunstâncias, assim como espero isso das outras pessoas. Talvez eu esteja apenas conjecturando.
“Um dos paradoxos dolorosos do nosso tempo reside no fato de serem os estúpidos os que têm a certeza, enquanto os que possuem imaginação e inteligência se debatem em dúvidas e indecisões.” (Bertrand Russell)
As palavras acima referidas são tão subjetivas quanto de difícil compreensão. A consequência são sentimentos diversos e distintos, tais como: sentir-me sufocado, que ninguém me ouve, injustiçado, culpado e sobretudo incompreendido.
Entendo que para suprimir esses sentimentos é necessário acabar com o exercício de “se”, pois os erros de ontem me fizeram um ser humano melhor hoje.
Buscarei conversas francas com Deus, encontrarei motivos de gratidão e celebrarei, mudarei minha perspectiva de ver a vida, buscarei e encontrarei a reconstrução de Deus, viverei satisfeito e desfrutarei da vida no reino, pois, acima de tudo, todos nós, seres humanos, fomos feitos para reinar em vida.
(07/10/2019)
Olhando para esse texto com a distância dos anos, percebo que ele marcou uma mudança importante. Pela primeira vez, deixei de perguntar como poderia mudar o passado e comecei a perguntar como deveria viver a partir dele.
Naquela época, eu escrevi que precisava acabar com o “exercício do se”. Eu ainda não compreendia toda a profundidade dessa frase. Mas, sem perceber, já caminhava na direção da liberdade.
Ao reler esse texto hoje, percebo que o “exercício do se” era apenas a superfície de um conflito muito mais profundo.
Durante anos, acreditei que o meu maior problema fosse a culpa. Mas, olhando para trás, percebo que a culpa apenas alimentava uma ilusão: a de que eu poderia construir uma história melhor do que aquela que Deus havia permitido que eu vivesse.
Sem perceber, eu passava horas imaginando versões alternativas da minha própria vida. Uma em que meu avô não tivesse morrido. Outra em que meu pai não tivesse adoecido. Outra em que nenhuma daquelas perdas tivesse acontecido. Em todas elas, havia algo em comum: eu ocupava o lugar de quem decidia quais acontecimentos deveriam permanecer e quais deveriam ser apagados.
Foi somente mais tarde que compreendi como essa lógica está presente desde as primeiras páginas da Bíblia.
No jardim do Éden, a serpente não convenceu Eva apenas a comer do fruto. Primeiro, lançou uma dúvida sobre o caráter de Deus. Depois, sugeriu que existia um caminho melhor do que aquele que Ele havia estabelecido. Em outras palavras, convidou o ser humano a escrever a história segundo o próprio entendimento.
Percebi, com certo desconforto, que eu fazia exatamente a mesma coisa. Não desejava desobedecer a Deus deliberadamente. Apenas acreditava que, se pudesse reorganizar alguns acontecimentos da minha história, o resultado seria melhor.
Mas existe um problema nessa forma de pensar: nós enxergamos apenas um capítulo. Deus enxerga a história inteira.
Aquilo que eu chamava de culpa era, muitas vezes, apenas a dificuldade de aceitar que eu não era o autor da minha própria história.
Talvez por isso Jesus tenha nos ensinado a orar dizendo: “Seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu.” Antes de ser uma renúncia, essa oração é um ato de confiança. É reconhecer que, mesmo quando não compreendemos todos os acontecimentos, a vontade de Deus continua sendo mais sábia do que a nossa.
Durante muito tempo, eu queria voltar para reescrever o passado. Aos poucos, Deus foi me ensinando algo muito melhor: não era a história que precisava mudar. Era o meu referencial ao interpretá-la.
Anos depois, escrevi outro texto. Pela primeira vez, não encontrei apenas dor. Encontrei gratidão. Não porque o sofrimento tivesse desaparecido, mas porque eu já não olhava para a minha história sob a mesma perspectiva.
*Para Clóvis, meu pai — Dez estações sem você*
Caiu como uma bomba sobre mim! Logo notei pela fisionomia carregada que as notícias traziam o peso do mundo. Ouvi, ecoando vazio, o mantra amargo: “é coisa da vida”… “é difícil, mas acontece”…
Vislumbrei, subitamente, cenários de um filme que eu jamais quis assistir. Imaginei se tratar de qualquer outro familiar. Sucumbi com a notícia. Captei os fatos de forma vaga, então pedi para que minha tia se retirasse, mas ela se negou e suplicou-me para colocar a dor para fora. Afirmei, ainda em negação, não querer ir ao velório, mas, mesmo contrariado, para lá me dirigi. Roupa incompatível com o clima: um blazer pesado num calor infernal, evidenciando o caos e o colapso no qual me encontrava.
Marcas deixadas na alma. Amor que machucou. Chocolates, cigarros e água, por favor – desta forma fui brilhante e calculista, eficiente em disfarçar a dor.
Heranças ásperas, dias extremamente destrutivos. Algo encontrava-se deformado, deturpado, sentimentos fora do lugar. Dias que posteriormente mostraram-se edificantes, mas precisaram ser ressignificados e deixados para trás. Oposição de ideias – textualmente evidente – é o efeito que quero causar.
Descanse em paz, pai! Esse é o meu desejo, e, aos poucos, estou me curando.
Ano posterior, toda a família reunida para um casamento. Agora, todos estavam presentes, evento planejado. Uma mesa incompleta – e foi ali que jorraram as lágrimas; toda a frieza e calculismo foram insuficientes, e nem a totalidade da água do Oceano Pacífico seria capaz de conter aquelas emoções sufocadas.
Sextas-feiras onde curo o que não pude salvar. Obrigado, Deus! Banquetes? Melhor é ir à casa onde há luto, rosto triste mutando-se em bom coração. Infinita é a bondade de Deus.
Nunca questione a razão pela qual foram os dias passados melhores do que estes, porque não provém da sabedoria esta pergunta.
Hosana nas alturas! Orgulhosamente seguirei com as homenagens.
(2026)
Naquele texto, pela primeira vez, consigo enxergar uma mudança profunda. Eu já não perguntava por que Deus permitiu que aquelas perdas acontecessem. Também já não gastava energia imaginando versões alternativas da minha história.
Pela primeira vez, agradecia a Deus dentro da própria história que, durante tantos anos, eu desejei reescrever.
Foi nesse momento que compreendi algo que jamais havia percebido antes. O oposto da culpa não é esquecer o passado. É confiar que Deus continua sendo bom, mesmo quando a história não foi escrita da maneira que eu gostaria.
A culpa me mantinha olhando para trás. A gratidão começou a me ensinar a olhar para frente.
Com o tempo, compreendi que existem histórias que não foram feitas para serem reescritas.
Foram feitas para serem atravessadas.
Na tentativa de corrigir mentalmente o passado, eu deixava de viver o presente.
E, sem perceber, eu estava preso em uma guerra onde o inimigo não era o que aconteceu — mas o que eu não conseguia aceitar.
Com o tempo, aprendi que nem toda dor vem de um erro que pode ser consertado.
Algumas dores vêm de limites que não controlamos.
E outras vêm de tentar controlar aquilo que já não está mais nas nossas mãos.
Aprendi que Deus não está comprometido com o cenário que eu considerava ideal.
Ele está comprometido com o meu crescimento.
E o crescimento, quase sempre, exige perdas que parecem injustas.
Se eu tivesse ido com meu avô, talvez ele ainda vivesse.
Talvez meu pai nunca tivesse sido internado.
Talvez eu não tivesse passado pelos vales que descrevi neste livro.
Mas também não teria aprendido a orar no caos.
Não teria desenvolvido paciência.
Não teria conhecido a fé que resiste.
Não teria me tornado professor em clínicas de reabilitação para dependentes químicos.
Não teria escrito este livro.
Se a história tivesse sido diferente, eu teria evitado dor — mas também teria perdido o processo que me formou.
Hoje percebo que o verdadeiro problema nunca foi desejar uma história sem sofrimento. Foi acreditar que eu seria capaz de escrever uma história melhor do que aquela que Deus estava escrevendo.
Durante muitos anos, tentei reconstruir mentalmente o passado. Descobri, porém, que Deus nunca me convidou a reescrever a minha história. Convidou-me a confiar nela.
Talvez seja exatamente isso que a serpente ofereceu no Éden: a ilusão de que existe um caminho melhor do que aquele estabelecido por Deus. E talvez seja exatamente por isso que Jesus nos ensinou a orar: “Seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu.”
A maturidade espiritual começou quando deixei de pedir uma história diferente e passei a pedir um coração capaz de atravessar a história que Deus escolheu escrever.
Com Jó, declaro:
“Bem sei que tudo podes, e que nenhum dos teus planos pode ser frustrado.”
(Jó 42:2)
Diante disso, aprendi algo que não é simples:
Há coisas que eu nunca vou conseguir reorganizar pela mente.
E tudo bem.
Talvez parte do amadurecimento seja exatamente isto:
Parar de tentar salvar versões alternativas da nossa história.
Então, em vez de permanecer no “e se…”, eu escolho o agora.
Não como fuga.
Mas como entrega.
E com Paulo, obedeço à palavra que Deus repetiu ao meu coração na igreja — a palavra de deixar o passado para trás.
O menino que perguntava “E se eu tivesse ido?” jamais imaginaria que, um dia, encontraria paz não por receber todas as respostas, mas por deixar de exigir que a história tivesse sido diferente.
Eu não precisava mais voltar.
Eu precisava seguir.
“Esquecendo-me das coisas que atrás ficam e avançando para as que estão diante de mim, prossigo para o alvo, pelo prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus.”
(Filipenses 3:13-14)




