Você Ainda Não Entende — Não Desista

“Porque a visão ainda está para cumprir-se no tempo determinado; mas se apressa para o fim e não falhará; se tardar, espera-o, porque certamente virá, não tardará.”
(Habacuque 2:3)

Existem dores que machucam o corpo.

Outras ferem o coração.

Mas poucas são tão difíceis de suportar quanto aquelas que não conseguimos compreender.

A dor, por si só, já pesa. Mas, quando não encontramos sentido nela, o peso parece dobrar. Não sofremos apenas pelo que aconteceu. Sofremos também pelas perguntas que permanecem sem resposta.

“Por quê?”

“Até quando?”

“O que Deus está fazendo?”

Talvez você também já tenha feito alguma delas.

Eu já.

E, olhando para trás, percebo que, em muitos desses momentos, a minha maior dificuldade não era esperar.

Era continuar confiando enquanto ainda não entendia.

Foi somente muito tempo depois que comecei a perceber algo que mudou a forma como passei a enxergar os meus próprios processos.

Talvez o nosso maior problema não seja a ausência de respostas.

Talvez seja a pressa de querer encontrá-las antes do tempo.

Foi durante uma experiência muito marcante da minha vida que recebi uma frase que nunca mais me abandonou.

Não veio como uma explicação para tudo o que eu estava vivendo.

Veio como um diagnóstico que eu levaria anos para compreender.

“O seu imediatismo e a sua falta de fé estão impedindo você de realizar os seus sonhos.”

Confesso que, num primeiro momento, aquilo me incomodou.

Sempre foi mais fácil acreditar que o problema estivesse nas circunstâncias, nas pessoas ou no tempo de Deus.

Muito mais difícil era admitir que talvez o problema também estivesse na forma como eu atravessava o processo.

Percebi que o imediatismo tem uma forma silenciosa de agir.

Ele nos convence de que estamos atrasados.

Transforma espera em fracasso.

Confunde demora com abandono.

Faz com que interpretemos o silêncio de Deus como ausência, quando muitas vezes ele é apenas o tempo necessário para que aquilo que hoje parece incompleto amadureça.

A falta de fé alimenta esse processo.

Porque a fé consegue esperar sem conhecer o final da história.

O imediatismo, não.

Ele exige respostas antes da hora.

Conclusões antes do último capítulo.

Resultados antes do processo terminar.

Foi somente muito tempo depois que percebi que, muitas vezes, eu não sofria apenas pelo que estava vivendo.

Eu sofria pela urgência de querer compreender aquilo que talvez só pudesse fazer sentido mais adiante.

Foi então que comecei a perceber que essa não era uma luta exclusivamente minha.

A Bíblia está repleta de pessoas que, em algum momento, também não entendiam o que Deus estava fazendo.

José não entendia a cisterna.

Não entendia a escravidão.

Não entendia a prisão.

Jó não entendia suas perdas.

Davi não entendia por que, depois de ser ungido rei, precisou passar anos fugindo para sobreviver.

Abraão não entendia por que a promessa demorava tanto para se cumprir.

Noé também não entendia por que construía uma arca para enfrentar algo que a humanidade jamais havia presenciado.

Nenhum deles recebeu uma explicação antecipada.

Deus não lhes entregou o último capítulo enquanto ainda viviam os primeiros.

Pediu apenas que continuassem caminhando.

Foi então que percebi um padrão curioso nas Escrituras.

Quase nunca Deus prepara alguém no lugar onde essa pessoa imagina chegar.

Antes do cumprimento da promessa, costuma haver um deserto.

Não porque Deus tenha prazer na escassez, mas porque existem lições que a abundância dificilmente conseguiria ensinar.

O deserto nunca foi o destino.

Sempre foi o caminho entre a promessa e o seu cumprimento.

Talvez seja esse um dos maiores desafios da fé.

Continuar obedecendo quando ainda não compreendemos.

Continuar confiando quando as circunstâncias parecem contradizer as promessas.

Porque a fé não elimina as perguntas.

Ela apenas nos impede de abandonar o caminho antes que Deus responda cada uma delas.

Foi somente muito tempo depois que José pôde dizer aos seus irmãos:

“Vós, na verdade, intentastes o mal contra mim; porém Deus o tornou em bem…”

José não enxergava esse propósito quando estava na prisão.

Jó não o enxergava em meio ao sofrimento.

Davi também não o via enquanto se escondia nas cavernas.

Nenhum deles caminhava porque entendia tudo.

Caminhavam porque decidiram confiar naquele que entendia.

Eles entenderam depois.

Enquanto viviam a história, apenas caminhavam.

Quando ainda jogava pelo Santos, Neto sofreu uma grave lesão na coluna cervical. Precisou passar por uma cirurgia na qual recebeu uma placa de titânio.

Na época, tudo o que aquela cirurgia representava era uma frustração.

O tempo passou.

Então aconteceu o acidente com o avião da Chapecoense.

Neto sobreviveu.

Quando acordou no hospital, não se lembrava da queda do avião. Sem compreender o que havia acontecido, acreditava apenas que havia sofrido mais uma lesão e, outra vez, ficado de fora de uma final de campeonato.

Sua memória havia preservado apenas parte da história. Talvez como um mecanismo de proteção, ele ainda não tinha acesso justamente às informações que mudariam completamente a conclusão a que estava prestes a chegar.

Na prática, era como se concluísse:

— Então é isso, Deus? O problema é comigo? O problema é final de campeonato? Então eu nunca vou poder jogar uma final de campeonato.

Ele ainda não sabia da tragédia.

Ainda não sabia que havia sobrevivido.

Ainda não sabia que sua cabeça havia sofrido diversos impactos durante a queda do avião.

Quando os médicos começaram a explicar o que realmente havia acontecido, veio também uma informação que mudaria completamente a forma como ele enxergava aquela antiga lesão.

A placa de titânio colocada anos antes, durante aquela cirurgia que um dia lhe pareceu apenas uma frustração, protegeu sua medula espinhal durante o impacto da queda, evitando que ele morresse ou até mesmo ficasse tetraplégico.

Imagine tentar explicar isso ao Neto no dia em que precisou passar por aquela cirurgia.

Ou mesmo enquanto, no hospital, chegava àquela conclusão.

Era impossível.

Ele ainda não tinha todas as informações.

Foi somente depois que compreendeu que aquilo que um dia parecia apenas uma frustração fazia parte de uma história muito maior do que ele conseguia enxergar.

Neto não foi o único a descobrir que algumas respostas chegam muitos anos depois.

Anos atrás, ouvi o testemunho de uma mulher que tentou tirar a própria vida.

Ela acordou no hospital sem encontrar razões para continuar vivendo.

Enquanto estava internada, um homem vestido de branco entrou em seu quarto e perguntou, com calma:

— Por que você fez isso sendo tão jovem?

Ela respondeu aquilo que, infelizmente, muitas pessoas nunca têm coragem de dizer em voz alta:

— Porque, se viver é sofrer, eu não quero mais viver. Não vejo mais motivos para continuar. Não sei por que nasci.

O homem não respondeu imediatamente.

Apenas apontou para o monitor que registrava seus batimentos cardíacos.

— Você sabe o que é isso?

— Sei. São meus batimentos.

Ele respondeu:

— Não. Isso é um resumo da vida.

Ela permaneceu em silêncio.

Então ele continuou:

— Se a sua vida não tiver altos e baixos, ela termina.

Ela começou a chorar.

Foi então que ouviu uma frase que jamais esqueceria:

— Um dia você vai entender por que está passando por isso hoje. Você só não pode desistir agora.

Pouco depois, o homem saiu do quarto.

Quando uma enfermeira entrou para realizar os procedimentos de rotina, ela perguntou o nome daquele médico. Queria agradecê-lo.

A enfermeira respondeu que ninguém havia entrado no quarto.

Anos depois, ao compartilhar seu testemunho, ela fez uma observação que me chamou tanto a atenção quanto toda a experiência vivida naquele hospital.

Ela disse que, durante a depressão, acreditava ser tão insignificante que chegou a pensar que nem Deus prestava mais atenção nela.

Mas o tempo passou.

A dor não desapareceu de um dia para o outro.

A vida não ficou mais fácil.

Em alguns momentos, ela própria afirma que tudo pareceu ainda mais difícil.

A diferença é que, depois daquele dia, ela já não queria mais desistir.

Não porque finalmente entendesse tudo.

Mas porque passou a confiar que, um dia, entenderia.

Foi somente depois de reunir todas essas histórias que percebi algo que nunca havia enxergado antes.

À primeira vista, elas parecem não ter nenhuma relação entre si.

Um jogador de futebol.

Uma mulher que enfrentava uma profunda depressão.

José, vendido pelos próprios irmãos.

Jó, sentado sobre as cinzas.

Davi, escondido em cavernas.

Noé, construindo uma arca sem compreender plenamente aquilo para o que Deus o preparava.

Mas todos eles tinham algo em comum.

Nenhum deles possuía todas as informações enquanto vivia a própria história.

José não sabia que a prisão seria o caminho para o palácio.

Jó não sabia que sua dor ultrapassaria sua própria geração e fortaleceria milhões de pessoas séculos depois.

Davi não sabia que a caverna fazia parte do caminho até o trono.

Noé não sabia que sua obediência preservaria a humanidade.

Neto não fazia ideia de que uma antiga cirurgia preservaria sua vida anos mais tarde.

Aquela mulher não imaginava que um dia seu testemunho impediria outras pessoas de desistirem.

Todos fizeram perguntas.

Todos enfrentaram momentos em que parecia não haver sentido.

Mas nenhum deles desistiu antes que Deus concluísse a história que estava escrevendo.

E todos descobriram a mesma verdade.

O problema nunca foi a ausência de respostas.

Era a tentativa de encontrá-las antes do tempo.

Foi então que percebi que talvez Deus nunca tenha prometido explicar cada etapa da caminhada enquanto ainda estamos percorrendo o caminho.

Ele apenas nos convida a continuar caminhando.

Porque algumas respostas só conseguem ser compreendidas olhando para trás.

Enquanto refletia sobre todas essas histórias, lembrei-me de uma cena da série The Chosen. De certa forma, ela parecia reunir em poucos minutos tudo aquilo sobre o que eu havia acabado de escrever.

Depois de uma perda que não conseguia compreender, Tomé olha para Jesus e diz, com lágrimas nos olhos:

— Eu não entendo.

Jesus não responde explicando tudo o que estava acontecendo. Também não promete que a dor acabaria imediatamente. Primeiro, reconhece seu sofrimento. Depois faz apenas um pedido:

— Fique comigo. Um dia você entenderá.

Talvez seja exatamente isso que Deus faça conosco muitas vezes.

Nem sempre Ele responde todas as nossas perguntas no momento em que as fazemos.

Às vezes, apenas nos convida a permanecer.

Talvez, enquanto você lia estas histórias, tenha sido fácil perceber aquilo que seus protagonistas não conseguiam enxergar.

Hoje sabemos por que José precisou passar pela prisão.

Sabemos por que Davi passou pelas cavernas.

Sabemos por que Jó perseverou.

Sabemos por que Noé continuou construindo a arca.

Sabemos por que a antiga lesão do Neto ganhou um novo significado.

Sabemos por que aquela mulher decidiu continuar vivendo.

Mas existe uma diferença entre a história deles e a sua.

A deles já conhecemos o final.

A sua, não.

Talvez seja justamente por isso que você tenha tanta dificuldade de compreender o que está vivendo hoje.

Porque ninguém consegue ler apenas um capítulo de um livro e afirmar, com segurança, como a história termina.

Talvez você esteja fazendo exatamente isso com a sua própria vida.

Talvez esteja tentando concluir uma história que Deus ainda está escrevendo.

Talvez esteja chamando de ponto final aquilo que Deus escreveu apenas como uma vírgula.

Por isso, antes de desistir, permita-me fazer apenas uma pergunta.

E se aquilo que hoje faz você pensar em abandonar tudo for justamente o capítulo que, um dia, dará sentido a todos os anteriores?

Talvez você ainda não entenda.

Mas isso não significa que Deus tenha parado de escrever.

Significa apenas que Ele ainda não terminou a história.

“Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito.”
(Romanos 8:28)

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