Volte — Ainda há caminho

“Permanecei em mim, e eu permanecerei em vós. Como não pode o ramo produzir fruto de si mesmo, se não permanecer na videira, assim nem vós o podeis dar, se não permanecerdes em mim. (João 15:4)

Quando ouvimos a palavra recaída, quase sempre pensamos no momento em que alguém volta a usar drogas, consome álcool novamente ou repete um comportamento que havia deixado para trás.

Durante o período em que atuei nas clínicas de reabilitação para dependentes químicos, porém, aprendi que a recaída dificilmente começa ali.

Ela costuma começar muito antes.

Antes da primeira pedra. Antes do primeiro gole. Antes da primeira dose.

Começa quando algo muda dentro de nós.

Às vezes, esse afastamento nasce da falsa sensação de que já conseguimos caminhar sozinhos. Outras vezes, da vergonha que nos convence de que fomos longe demais para voltar. Em ambos os casos, a queda visível costuma ser apenas o último capítulo de uma história que começou muito antes, silenciosamente, na mente e no coração.

Foi convivendo com dependentes químicos que comecei a perceber que esse mecanismo não pertence apenas às drogas. Ele também pode se manifestar na caminhada espiritual.

Na rotina das clínicas, antes das aulas de educação física, acontecia a reunião da espiritualidade. Naquele dia, cheguei um pouco mais cedo. Enquanto estacionava o carro, ouvi um dos alunos compartilhando sua história. Era o Murilo.

Não entrei na conversa. Permaneci ouvindo à distância enquanto organizava a aula.

Enquanto contava sua trajetória, Murilo resumiu sua experiência de uma forma que nunca mais saiu da minha cabeça.

Segundo ele, a mãe sempre dizia que, se continuasse andando com pessoas envolvidas com drogas, acabaria se tornando igual a elas. Depois, ao começar a frequentar o Narcóticos Anônimos, percebeu que também havia se tornado parecido com aquelas pessoas. O problema, dizia ele, começou quando acreditou que podia caminhar sozinho.

Aquela frase permaneceu comigo.

Naquele momento, ela fazia sentido apenas dentro da realidade da dependência química. Com o passar do tempo, porém, comecei a perceber que Murilo havia descrito um mecanismo muito maior do que imaginava.

Primeiro veio o afastamento.

Só depois veio a recaída.

Eu ainda não percebia que aquelas palavras dialogavam com um princípio registrado havia milhares de anos nas Escrituras.

“A soberba precede a ruína, e a altivez do espírito precede a queda.”
(Provérbios 16:18)

Foi então que uma pergunta começou a me acompanhar.

Será que não existe certa soberba em acreditar que conseguimos caminhar sozinhos?

A resposta para aquela pergunta começou a surgir alguns meses depois.

Assistindo à série The Chosen, encontrei uma cena que me fez voltar imediatamente àquela manhã na clínica.

Uma cena, em especial, chamou profundamente a minha atenção.

Depois de voltar à antiga vida, Maria Madalena acredita que já não pode retornar. Quando um dos discípulos diz que Jesus deseja vê-la, ela se recusa. Acredita que desperdiçou a oportunidade que havia recebido. Afinal, como ela mesma diz, Ele já a havia restaurado uma vez, e ela “quebrou de novo”.

Quando finalmente se encontram, Maria, tomada pela vergonha, diz que não consegue viver à altura daquilo que recebeu. Pede perdão, como alguém que acredita ter ido longe demais.

Então Jesus responde:

— Eu só quero o seu coração. O Pai só quer o seu coração. Dê-nos isso. Apenas o que você consegue oferecer agora. O resto virá com o tempo.

Naquele diálogo, percebi que o problema de Maria não era apenas a recaída.

Era aquilo que aconteceu antes dela.

Sua vergonha a havia convencido de que não existia mais caminho de volta.

Compreendi, então, que o afastamento pode nascer de muitas formas.

No caso de Murilo, ele começou quando acreditou que podia caminhar sozinho.

Maria, por sua vez, acreditou que sua queda era maior do que a graça que a havia alcançado.

Há alguns meses, vi uma reportagem que me chamou a atenção.

As fotografias mostravam uma mulher revirando lixeiras nas ruas de Los Angeles.

Cabelos descuidados. Roupas gastas. O rosto marcado pelo tempo e pelo sofrimento.

Era difícil acreditar que aquelas imagens pertenciam à mesma pessoa que, anos antes, estampava capas de revistas e trabalhava como modelo.

Loni Willison sofreu um colapso pessoal após um divórcio conturbado. Enfrentou graves problemas de saúde mental e dependência química. Perdeu seus bens e passou a viver em situação de rua.

Mas não foi sua aparência que mais me chamou a atenção.

Foi uma declaração concedida à imprensa.

“Posso viver sozinha. Tenho tudo de que preciso aqui. Ninguém realmente se importa comigo e eu não quero vê-los. Eles não querem me ver.”

Enquanto lia aquelas palavras, lembrei-me imediatamente da conversa entre Jesus e Maria Madalena.

Percebi que, embora separadas por dois mil anos, havia algo em comum entre elas.

Não era apenas a dor.

Era a maneira como enxergavam a si mesmas.

Quanto mais eu refletia sobre essas histórias, mais uma pergunta surgia dentro de mim.

Maria Madalena acreditava que havia ido longe demais.

Loni Willison dizia que podia viver sozinha e que ninguém realmente se importava com ela.

Murilo acreditou que conseguiria caminhar sozinho.

Histórias diferentes.

Épocas diferentes.

Mas havia algo em comum entre todas elas.

O afastamento.

Passei, então, a observar não apenas as diferentes formas de afastamento, mas também a maneira como Cristo respondia a elas.

Sempre que alguém se aproximava de Jesus carregando culpa, vergonha ou o peso de uma vida marcada pelo pecado, a reação d’Ele nunca era o afastamento.

O leproso aproximou-se impuro.

A mulher que sofria havia anos com um fluxo de sangue também.

Zaqueu carregava a marca da corrupção.

A mulher adúltera aguardava a condenação.

O ladrão na cruz já não tinha tempo para reconstruir a própria vida.

A sociedade já havia emitido seu veredito sobre todos eles.

Jesus, porém, não confirmou nenhum desses vereditos.

Ele nunca minimizou o pecado.

Mas também nunca rejeitou quem se aproximou d’Ele com o coração disposto a voltar.

Restava, porém, uma pergunta.

Se Cristo acolheu justamente aqueles que a sociedade considerava impuros, indignos e irrecuperáveis, de onde vem a certeza de que justamente eu — ou você — seríamos a primeira exceção?

Talvez seja por isso que a recaída seja tão perigosa.

Ela raramente começa quando alguém volta a usar drogas.

Ela começa quando deixamos de acreditar que ainda podemos voltar.

Começa quando o afastamento parece mais confortável do que a comunhão.

Quando a culpa parece maior do que a graça.

Quando a vergonha fala mais alto do que a voz de Cristo.

Quando acreditamos que conseguimos caminhar sozinhos.

Ou quando passamos a acreditar que já fomos longe demais para sermos recebidos novamente.

Ela talvez também possa começar quando simplesmente deixamos de entender o que Deus está fazendo.

Foi convivendo com dependentes químicos que aprendi uma das lições mais importantes da minha caminhada cristã: o mecanismo da recaída é muito parecido, independentemente do contexto.

Primeiro nos afastamos.

Depois caímos.

Por isso, a maior vitória nem sempre é nunca tropeçar.

Às vezes, é reconhecer rapidamente que estamos nos afastando e ter humildade para voltar antes que a distância se torne ainda maior.

“Aquele, pois, que pensa estar em pé veja que não caia.”
(1 Coríntios 10:12)

Facebook
Twitter
WhatsApp
Threads
LinkedIn

A História que Poderia Ser Diferente — A máquina do tempo da culpa

A História que Poderia Ser Diferente — A máquina do tempo da culpa“Por causa da ferradura, perdeu-se o cavalo;por causa ...
/

Quanto Tempo Dura uma Lágrima?

Quanto Tempo Dura uma Lágrima?“Minhas lágrimas têm sido o meu alimento de dia e de noite…” (Salmos 42:3)Em Jesus Chorou, ...
/

Firme sua Identidade — A posição que Deus vê

Firme sua Identidade — A posição que Deus vê“Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas ...
/

O Tempo da Liberdade

O Tempo da Liberdade“O coração do homem planeja o seu caminho, mas o Senhor lhe dirige os passos.”(Provérbios 16:9)Honestamente, não ...
/

Muito Além do Caminho — Pelos Labirintos da Vida

Muito Além do Caminho — Pelos Labirintos da Vida“Reconhece-o em todos os teus caminhos, e ele endireitará as tuas veredas.”(Provérbios ...
/

Você Ainda Não Entende — Não Desista

"Porque a visão ainda está para cumprir-se no tempo determinado; mas se apressa para o fim e não falhará; se ...
/

Leave a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Scroll to Top