Tente de novo
Insistência, persistência e a mesa de Deus
“Disse o homem: Deixa-me ir, pois já raia o dia. Mas Jacó respondeu: Não te deixarei ir, se me não abençoares.” (Gênesis 32:26)
Recentemente assisti a um vídeo de Deive Leonardo que inspirou e nomeou este capítulo. A ideia aparenta simplicidade, mas é universal, portanto me atravessou de forma pessoal. Porque tentar de novo é fácil no discurso, mas exige esforço em sua execução, sobretudo quando estamos cansados de tanto tentar.
Deive narrava histórias de pessoas que estavam à beira de desistir, mas que decidiram dar mais uma chance. Não uma chance qualquer – nem repetitiva –, mas uma chance com perspectiva de aprendizado. Foi aí que comecei a refletir sobre a diferença fundamental entre insistência e persistência.
Quando você já tentou tantas vezes, e nada mudou, a pergunta que vem é: ‘Por que eu deveria tentar de novo?’ E uma segunda, ainda mais direta: ‘Qual é a diferença entre tentar de novo com teimosia ou com sabedoria?’
Antes de entender essa diferença, eu vivi na pele o desconforto da repetição vazia.
Lembro de uma noite específica, voltando de uma balada que sequer me agradava. O sol já raiava, eu dirigia silenciosamente. O rádio desligado, quando pensei: “O que eu estava fazendo naquele lugar? Por que eu ainda insisto nisso?” Não tinha resposta, apenas o peso e o cansaço de uma decisão impensada.
Albert Einstein definiu insanidade como ‘tentar a mesma coisa, da mesma forma e esperar resultados diferentes’. Isso é insistência: bater na mesma tecla, com a mesma estratégia, e se frustrar porque nada muda.
O oposto disso não é apenas tentar de novo – é tentar de novo com humildade. É a humildade que nos direciona para a persistência.
Alexander Pope escreveu: ‘Um homem nunca deve ter vergonha de admitir que errou – o que é apenas dizer, em outras palavras, que hoje é mais sábio do que era ontem.’
Persistência é diferente. Ela não desiste do objetivo, mas desiste da estratégia falha. Aprende com a queda, ajusta a rota, muda a abordagem. Segue em frente.
Embora tanto a persistência quanto a insistência sejam tentar novamente, elas se diferem quanto a forma. A diferença é sutil, mas seus resultados são estrondosos.
Aprendi com A Arte da Guerra que vencer cem batalhas não exige força bruta, mas conhecer o inimigo – meu erro repetido – e conhecer a mim mesmo – minha necessidade de mudar – para melhor aplicar diante do combate.
Tony Hobbins, no livro Poder sem Limites, ensina que o mau julgamento alimenta o bom julgamento, pois produz experiência.
Apliquei este ensinamento quando ministrava aulas de Educação Física em clínicas de reabilitação para dependentes químicos. Criei uma atividade chamada “Campo Minado em Movimento”: bambolês dispostos em fileiras, formando um caminho a ser descoberto. Quem acertava, escolhia uma tarefa motora para os outros; quem errava, recebia uma tarefa determinada por mim. A ideia era que o erro não fosse punido, mas aproveitado – e que a observação dos acertos e erros alheios ensinasse tanto quanto a própria tentativa.
No fim, fechei a atividade com uma frase: “Sábio é quem aprende com o erro do outro.” Naquele ambiente, onde a memória é afetada pelas drogas, aprender observando não é apenas sábio – é necessário.
Confesso que nem todos participaram, mas os que participaram sorriram ao final da atividade. Um deles, o Murilo Sottini, pediu que o livro Poder sem Limites – o mesmo que eu havia lhe emprestado – ficasse com ele de forma definitiva, “pois o estava fazendo muito bem”. Ele me presenteou com uma linda carta: “O exército do Senhor precisa de soldados como você, fortes e preparado. Todo seu amor e desempenho tem sido visto pelo Pai. Este é o caminho, continue meu mano Tmj Gui!”
A semente que meu avô plantou em mim, através da leitura, encontrou ali terra fértil. E aquele que aprendeu com o erro, na atividade, levava algo para a vida.
Paulo complementou. Ele não apenas aprendeu com os erros – ele guardou a fé até o fim. No fim da vida, escreveu: ‘Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé. Desde agora, a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, justo juiz, me dará naquele Dia; e não somente a mim, mas também a todos os que amarem a sua vinda.’ (2 Timóteo 4:7-8)
No capítulo “O Último Movimento”, contei a história da pintura do xeque-mate: o homem desistiu, o diabo sorriu, os anjos baixaram a cabeça – mas o enxadrista viu que ainda havia um movimento.
Tentar de novo é acreditar que ainda há um movimento no tabuleiro. Não um movimento qualquer – o movimento que só enxerga quem não desistiu de olhar, quem aprendeu com o erro (próprio ou alheio) e quem, acima de tudo, convidou Deus para sentar-se à mesa.
Em síntese: tente de novo. Mas tente com Deus, com humildade e de um novo jeito. Admita o erro, faça dele um professor, ajuste a rota se necessário. E, acima de tudo, convide o Rei dos Reis para sentar-se com você.
“Não nos cansemos de fazer o bem, porque a seu tempo ceifaremos, se não houvermos desfalecido.” (Gálatas 6:9)





