“Transformaste o meu pranto em dança, a minha veste de lamento em veste de alegria.”
(Salmos 30:11)
Sonhei que chorava. Não um choro leve, desses que se enxuga com as costas da mão. Era um choro profundo e incontrolável, de soluçar, de tremer o peito. Tão real que, ao acordar, ainda sentia o gosto salgado nos lábios e os olhos ardiam. Tive a sensação – que até hoje me acompanha – de que aquele sonho era profético. Como se Deus tivesse baixado a tela do céu por um instante e me mostrado algo sem tradução imediata.
Atrás ou dentro de mim, havia um vale. Montanhas suaves, cobertas de palmeiras, uma floresta de beleza quase indescritível – um lugar lindo, de uma paz que transcendia o entendimento. Eu chorava ali, mas o cenário não era triste. Era fértil, aberto, promissor. E naquele contraste – lágrimas e paisagem de sonho – eu entendi o que Deus queria me dizer: para viver as promessas, eu precisava de uma forma melhor de lidar com os meus sentimentos. Mas como transformar um choro que parece não ter fim?
Mais tarde, assistindo a um corte da série The Chosen, que retrata a vida de Jesus e seus discípulos, compreendi algo ainda mais profundo sobre aquele momento no vale. Mateus, o cobrador de impostos, questiona Jesus sobre o uso de metáforas. E Jesus responde: “Me permita um pouco de poesia. Essas coisas farão sentido para alguns, e não farão para outros. Os verdadeiramente comprometidos vão examinar profundamente, procurando pela verdade.” Deus estava fazendo exatamente isso comigo: falando por imagens, não por manuais. A poesia d’Ele era a palavra que eu precisava ouvir – e ela transformou os meus sentimentos sem deslegitimá-los.
Essa mesma poesia – que não entrega respostas prontas, mas convida a examinar – revela também o critério de Jesus para escolher seus discípulos. E o que aprendi me libertou: Ele não veio chamar os justos, mas os pecadores. Não são os saudáveis que precisam de médico, mas os doentes. E cita o pergaminho de Oséias: “Eu quero misericórdia, não sacrifícios” – como escrevi em “Nem toda dor precisa de remédio imediato”. Jesus não procurou religiosos experts, pessoas influentes ou “merecedoras”. Pelo contrário. Chamou pescadores brutos, um cobrador de impostos visto como traidor, um nacionalista radical, e até quem o trairia. O critério não era currículo, virtude moral perfeita ou garantia de lealdade futura. Era o coração disponível – ainda que cheio de dúvidas, vícios e lágrimas. Deus não me escolheu porque eu transformava meus sentimentos perfeitamente. Ele me escolheu porque, mesmo no choro incontrolável daquele vale, meu coração estava disponível para ouvir a palavra que transforma o sentimento e caminhar junto d’Ele.
Acordei inspirado no meio da noite. Não consegui dormir mais. Levantei, abri o caderno e comecei a escrever. O que saiu foi um testemunho longo, denso, cheio de poesia, datas e nomes – uma homenagem aos 20 anos da morte do meu avô Cláudio. Eu misturei versos que escrevi aos 15, 20, 25, e também aos 30. Ainda coloquei uma carta da Rita Macedo, já falecida. Eu verti ali todo o sentimento do sonho. O texto ficou extenso – talvez prolixo – mas cada palavra era verdadeira.
Naqueles dias, algo extraordinário acontecera: uma bênção financeira de 35 mil reais, um fôlego inesperado. O sonho, o choro, o vale, o dinheiro que veio do nada – tudo parecia conectado, como se Deus estivesse me conduzindo por um caminho que eu só conseguia ver do avesso.
Enviei o testemunho para a igreja que frequentara na época, a Ibis (hoje Igreja Família). Uma funcionária, Enyd Cândido, me ligou. Perguntou se eu tinha recebido alguma bênção. Eu não soube comunicar da melhor forma a bênção que recebera. As palavras emperraram. Ela, talvez, desconfiou. Me pediu o texto. Eu enviei. Depois, o descrédito.
Supus que não o leram. O motivo, me disseram, é que o texto estava longo demais. Poético. Cheio de camadas que, talvez, não coubessem no formato esperado.
Fiquei frustrado. Não vou mentir. Eu queria inspirar pessoas, e ali estava alguém dizendo, sem dizer, que o meu testemunho não servia. Adaptei-me. Produzi uma versão enxuta, mais direta, mais palatável. “Meu testemunho de superação do medo e da tristeza”. Sem poesia, datas, histórias ou floreios. Só fatos.
Não foi imediato. Levei um tempo para assimilar, mas o Espírito Santo me lembrou das palavras que o pastor Eduardo havia dito no púlpito: “Não se guie por sentimentos, mas pela palavra do Senhor.” E o que era a minha pressa de inspirar e ajudar – e, sim, de ter meu testemunho reconhecido para que ele alcançasse mais pessoas –, senão um sentimento? O que era aquela versão enxuta, senão uma tentativa de me adaptar, como me foi sugerido?
Eu havia sonhado com um vale lindo – que vinha depois do choro. O choro representava minha fragilidade emocional. Deus me mostrou que eu precisava aprender a direcioná-la, para que ela não me impedisse de chegar ao tão desejado vale. A frustração que senti ao não ver meu testemunho acolhido não veio com lágrimas. Veio com um afastamento silencioso. Passei a frequentar menos a igreja. E, aos poucos, aquilo me distanciou de Deus.
Houve vários momentos em que tive dúvidas quanto à fé. Em um deles, durante uma conversa informal com Gardner, enquanto estava em atendimento por ele na barbearia Discípulos, ele me lembrou do sonho do vale. Disse que estava claro que Deus gosta e acredita em mim. E ele disse uma frase que me fez refletir: “Se você, mesmo bagunçado, já ajuda as pessoas, imagina você firmado no centro da vontade de Deus.” Aquilo não foi um puxão de orelha. Foi um lembrete de que a palavra que transforma o sentimento já estava em mim – eu só precisava persistir na fé.
Essa foi a virada. Entendi que, se a culpa fosse do outro, eu jamais poderia mudar as coisas. Mas se a responsabilidade fosse minha – mesmo que eu não tivesse intenção de errar –, então a solução sempre estará em minhas mãos. Meu testemunho era comprido porque era proporcional à dor. A saudade não cabia em parágrafos enxutos. Os efeitos do luto tiveram suas redundâncias e clichês – aprendi que clichês nada mais são do que verdades atemporais, e por isso perduram, porque são verdadeiras.
“Me permita um pouco de poesia”, pediu Jesus a Mateus. Pois bem. Este capítulo é a minha permissão para que você, leitor, também se permita transformar seus sentimentos não pelos manuais do mundo, mas pela palavra que vem de Deus – ainda que venha em sonhos, em vales ou até mesmo em lágrimas.
“Aquietai-vos e sabei que eu sou Deus.”
(Salmos 46:10)





