Terra Boa — Ferramentas para Cultivar
“Aquele que tem ouvidos para ouvir, ouça.”
(Mateus 13:9)
Quando atuei como professor em clínicas de reabilitação para dependentes químicos, eu tinha uma rotina de estrada. A primeira aula era das nove às dez da manhã, no CT Semelhança, em Itu. Às dez e quarenta e cinco eu precisava estar em Sorocaba, no bairro Éden, a quase quarenta quilômetros dali, para a segunda aula, no CT Luz Recanto Esperança.
Eu carregava no celular um texto recém-escrito. Ainda não lapidado. O título era Pare de se Automedicar. Eu tinha a intenção de lê-lo para os alunos, mas estava em dúvida. Aquele ambiente era de grande responsabilidade. Cada palavra dita ali precisava ser muito bem pensada. Eu não queria falar por falar. Na primeira clínica, o tempo era curto. O relacionamento com os alunos ainda era superficial, e eu não conseguia mensurar os efeitos que aquela leitura poderia causar. Por isso, a princípio, decidi não ler.
Eu seguia pela estrada rumo à segunda aula. Enquanto ruminava a decisão, pedia a Deus um direcionamento. Aquele texto havia sido escrito exatamente para ser lido naquele ambiente, diante daquelas pessoas. Ainda assim, eu tinha dúvidas se aquelas palavras eram realmente o que elas precisavam ouvir. Foi então que um caminhão cruzou por mim. A placa, em letras grandes, dizia: Gardenal.
Gardenal é como eu chamo o Gardner — meu barbeiro, amigo e consultor espiritual. Uma brincadeira nossa, dessas que só fazem sentido entre dois irmãos de caminhada. Ver aquela placa justamente no momento da dúvida pareceu coisa de Deus — ou, no mínimo, um empurrão para que eu o consultasse.
Enquanto dirigia — confesso —, apontei a câmera do celular para o caminhão e tirei uma foto da placa. Enviei junto a seguinte mensagem:
— Fiquei feliz pelo seu novo veículo, parabéns!
Ele viu a foto e entrou na brincadeira na hora:
— Olha as coisas que acontecem contigo, kkkk.
Mandei um áudio explicando a situação: eu vinha pedindo um direcionamento a Deus, e a placa tinha acabado de aparecer. Para mim, naquele momento, aquilo era uma resposta. Do outro lado, mesmo em meio à rotina da barbearia, ele respondeu:
— Estou livre agora.
Perguntei se podia mandar o texto. Ele concordou e ainda brincou:
— É zoeira ou coisa séria, kkkk?
— Coisa séria. Preciso que você leia rápido porque já vou entrar em aula.
Ele começou a leitura. Não deu tempo de terminar. Mas, antes que eu pudesse perguntar o que tinha achado, respondeu:
— Cara do céu, Deus tem algo na nossa vida. Juntos, kkkkkk. Incrível.
— Leu alguma coisa? — perguntei.
— Eu abri e Deus já tocou no meu coração.
Agradeci e disse que depois contaria como tinha sido.
Guardei o celular e foquei no trânsito. A foto do caminhão ficou salva na galeria — um lembrete do improvável de Deus para responder orações.
Era para ler.
Cheguei decidido.
Antes mesmo de a aula começar, eu já sabia em que momento faria a leitura: o fechamento, pouco antes do almoço. Havia um ritual ali — as orações do Pai-Nosso, da serenidade e do alimento. Pensei: é ali que ela se encaixa. Durante a aula, guardei o texto e esperei.
Quando começaram as orações, fiquei de pé diante de todos. O refeitório ficava ao lado, e alguém arrastava uma cadeira ao fundo. Aos poucos, os alunos foram se acomodando.
Comecei a ler.
Enquanto lia, meus olhos percorriam a sala. Eu tentava perceber, nos rostos, nas posturas e nos silêncios, se aquelas palavras encontravam espaço dentro deles.
Dois alunos mais jovens cochichavam. Outro bocejava alto, espreguiçando-se na cadeira. Um quarto, incomodado, interrompeu:
— Respeita, pô. O professor tá lendo. Presta atenção.
Os que conversavam se calaram, e eu continuei até o fim.
Quando terminei, eles me aplaudiram. Agradeci. Saí da sala com a sensação estranha de quem havia lançado uma semente sem saber que tipo de solo ela havia encontrado.
Naquele mesmo dia, fui até a barbearia Discípulos. Durante o atendimento, contei ao Gardner como tinha sido a leitura na clínica. Falei das reações. Reforcei minhas dúvidas sobre se aquele conteúdo tinha realmente ajudado em algo.
Foi então que ele me trouxe a parábola do semeador.
Não precisou de uma longa explicação.
A imagem da semente e do solo foi suficiente para que eu entendesse: meu texto era semente. O que aconteceria com ele dependeria do solo. Meu papel era lançar. O crescimento, porém, não dependia somente de mim.
Na semana seguinte, procurei o Murilo. Ele era um dos alunos mais dedicados e eu havia percebido sua atenção durante a leitura. Queria entender o que tinha permanecido depois daquela experiência.
— Tem coisas boas sim — ele disse. — Mas depende da disponibilidade de cada um para absorver.
Contei a ele o que o Gardner havia me dito: a parábola do semeador. Ele concordou com a cabeça.
Depois que ele falou, fiquei em silêncio. As palavras ainda ecoavam dentro de mim:
“Depende da disponibilidade de cada um.”
Eu já ouvira aquilo antes, mas, naquele contexto, elas tinham um significado diferente.
A partir daquele dia, decidi que as leituras não seriam mais feitas para todos, mas direcionadas. Percebi que poderia fortalecer os líderes — entendendo que aquilo que recebiam de bom poderia, de alguma forma, alcançar os demais.
Antes de oferecer um recurso, eu procurava ouvi-los. Queria entender o que estavam sentindo e quais eram suas necessidades.
Quando percebia que alguém estava aberto ou precisava de algo específico, me aproximava, puxava conversa e, se o momento permitisse, trazia uma ferramenta que dialogasse com aquilo que eu havia percebido — fosse uma atividade física ou uma leitura.
A semente era a mesma. O cuidado com o solo é que precisava mudar.
Nem todo terreno está pronto para receber — e o que me cabe é fazer a minha parte.
Eu já vinha testando algumas atividades. No início da minha trajetória como professor, preparei uma forca. A ideia era utilizar frases motivacionais que pudessem oferecer boas ferramentas aos alunos.
Mas a execução não alcançou o resultado que eu esperava. A atividade ficou pouco estruturada. Faltou um planejamento mais cuidadoso e uma compreensão mais clara daquilo que eu queria despertar.
Saí daquela aula com a sensação de que uma boa ideia, sozinha, não era suficiente. Era preciso construir uma ferramenta que conduzisse os alunos ao objetivo desejado.
Algum tempo depois, decidi retomar a atividade. Dessa vez, com um planejamento cuidadoso. Entendi que uma ferramenta não depende apenas da ideia que a origina, mas também da forma como é construída e aplicada.
Mantive a estrutura da forca, mas aprimorei sua execução para que ela alcançasse melhor sua intencionalidade.
Preparei cinco folhas. Na frente de cada uma, uma frase curta. No verso, um versículo que dialogava com aquela mensagem.
As frases eram:
“Viva o hoje.”
“Um dia de cada vez.”
“Eu posso mudar.”
“Recomeçar é possível.”
“Até hoje eu sobrevivi a cem por cento dos meus dias ruins.”
Cada frase carregava, no verso, um versículo que reforçava a mensagem.
Apliquei a atividade nas três clínicas em que atuava na época, e ela fluiu bem em todas elas.
Os retornos me marcaram. Alguns alunos pediram para guardar a folha. Um deles disse que guardaria aquele material com carinho.
Mas algo naquele dia me chamou especialmente a atenção.
Durante a espiritualidade da clínica, que antecedia a minha aula, Murilo trouxe um versículo que eu também havia escolhido para uma das folhas da atividade.
Era justamente:
“No mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo; eu venci o mundo.”
(João 16:33)
Ele não sabia da dinâmica que eu aplicaria naquele dia, nem que aquele mesmo versículo havia sido escolhido por mim para uma das ferramentas que eu levaria para a aula.
Para mim, aquilo não foi apenas uma coincidência. Foi uma confirmação de que Deus também estava trabalhando através daquela semente.
Algumas de minhas atividades também passaram por esse mesmo processo de lapidação. Uma delas foi a Corrida das Palavras.
A proposta inicial era uma adaptação de um exercício simples de agilidade. Eu gritava um número: se fosse par, os alunos corriam para a direita; se fosse ímpar, para a esquerda.
A ideia era trabalhar agilidade mental, atenção e tomada de decisão.
Na primeira tentativa, percebi algo interessante: muitos não estavam realmente raciocinando. Apenas observavam o grupo e seguiam a maioria. A resposta vinha antes do pensamento.
Diante disso, fiz uma intervenção. Passei a correr para o lado errado de propósito. Quem me seguisse, errava e precisava cumprir uma tarefa motora.
Aos poucos, eles começaram a perceber que precisavam pensar por conta própria.
Na segunda vez que apliquei a atividade, um aluno se manifestou:
— Não vou fazer, professor. Não sou bom em matemática.
Naquele momento, percebi que o problema não era a capacidade dele. A atividade tinha valor, mas aquela ferramenta ainda não havia encontrado a melhor forma de alcançá-lo.
Ele não estava com preguiça. Não estava me desafiando. Ele estava com medo. Medo de errar, de se expor, de confirmar algo que talvez já acreditasse sobre si mesmo:
“Eu não sou capaz.”
Parei. Pensei.
E se, em vez de números, fossem palavras?
Troquei a lógica da atividade.
Elaborei uma lista criteriosa. Escolhi palavras que faziam parte do universo deles — aquilo que enfrentavam, temiam e desejavam.
A lista ficou assim:
Família, internação, fé, bebidas, drogas, amizade, leitura, mudanças, sonhos, competição, rotina, emoções, escolhas, mentalidade, ansiedade, tédio, consequências, vontades e problemas.
Se a palavra representasse algo positivo, corriam para a direita. Se representasse algo negativo, para a esquerda.
Não havia uma resposta certa ou errada. Cada um precisava decidir a partir da própria percepção.
Depois que todos escolhiam um lado, eu perguntava:
— Por que isso é positivo para você? Por que isso é negativo?
Naquele momento, a atividade deixava de ser apenas um exercício físico e se transformava em uma ferramenta de reflexão.
Eles começavam a ouvir a própria resposta, ouvir os colegas e perceber que algumas escolhas que pareciam positivas talvez também carregassem consequências.
Aprendi na faculdade que uma atividade poderia ser adaptada e ganhar uma nova identidade, de acordo com o objetivo que eu desejava alcançar.
Foi o que fiz.
Mantive a estrutura inicial, mas adaptei o conteúdo para a realidade daqueles alunos. O que antes era apenas um exercício de números se transformou em uma ferramenta de autoconhecimento.
Ao olhar para aquele caminho percorrido — da leitura daquele texto às atividades que foram sendo aprimoradas — uma certeza se tornou ainda mais clara para mim:
Boas ferramentas não nascem apenas de boas ideias; nascem de um propósito bem definido e só frutificam quando encontram um solo disposto a recebê-las.
A semente precisa ser lançada. Mas também é preciso compreender o solo. É preciso cuidado, adaptação e disposição para cultivar.
Este livro é uma caixa de ferramentas.
Cada capítulo que você leu até aqui é um instrumento: diagnóstico, paciência, mudança de referencial, oração e persistência.
Não são promessas de cura instantânea. São recursos para quem decide cultivar a própria terra.
Mas uma ferramenta, por melhor que seja, não constrói nada sozinha.
É preciso mãos. É preciso disposição. É preciso assumir a responsabilidade pela própria construção.
Há uma parte que depende da ferramenta. Há uma parte que depende do solo.
Este livro pode oferecer a você aquilo que aprendi na travessia da minha própria dor. Pode colocar ferramentas em suas mãos, mas a transformação depende de como você irá utilizá-las.
Depende do seu solo.
Talvez algumas palavras tenham encontrado espaço dentro de você. Talvez outras ainda estejam esperando o momento certo para germinar.
Mas uma coisa eu aprendi:
Eu não posso controlar o crescimento da semente.
Meu papel é lançá-la.
O crescimento é com Deus.
E a terra é com você.
Leve estas ferramentas com você:
Viva o hoje.
“Portanto, não se preocupem com o amanhã, pois o amanhã trará as suas próprias preocupações. Basta a cada dia o seu próprio mal.”
(Mateus 6:34)
Um dia de cada vez.
“As misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos… renovam-se cada manhã.”
(Lamentações 3:22-23)
Eu posso mudar.
“Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo.”
(2 Coríntios 5:17)
Recomeçar é possível.
“Não vos lembreis das coisas passadas, nem considereis as antigas. Eis que faço uma coisa nova…”
(Isaías 43:18-19)
Até hoje eu sobrevivi a cem por cento dos meus dias ruins.
“No mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo; eu venci o mundo.”
(João 16:33)
“Eis que o semeador saiu a semear. E, quando semeava, uma parte da semente caiu à beira do caminho, e vieram as aves e a comeram. Outra parte caiu em solo rochoso, onde a terra era pouca, e logo nasceu, visto não ser profunda a terra; mas, vindo o sol, a queimou; e, porque não tinha raiz, secou-se. Outra caiu entre espinhos, e os espinhos cresceram e a sufocaram. Outra, enfim, caiu em boa terra e deu fruto: a cem, a sessenta e a trinta por um.”
(Mateus 13:3-8)





