O Homem que me Esperava

“Acima de tudo, guarde o seu coração, pois dele depende toda a sua vida.”

(Provérbios 4:23)

Existem momentos em que o tempo passa.

E existem momentos em que o tempo simplesmente para.

Para aquele homem, os últimos quinze dias pareciam pertencer à segunda categoria.

Ele não sabia dizer exatamente quando deixou de acompanhar o mundo lá fora. As mensagens chegavam, os dias amanheciam, os carros continuavam passando na rua, as pessoas seguiam suas rotinas, mas, dentro daquela casa, tudo parecia suspenso.

As cortinas permaneciam fechadas.

A televisão permanecia desligada.

O celular acumulava mensagens que ele não tinha coragem de responder.

Entre elas, algumas diziam:

— Feliz aniversário.

— Que Deus abençoe sua vida.

— Que esse novo ciclo seja especial.

Ele lia.

Mas não encontrava forças para escrever uma resposta.

Naqueles dias, a distância entre a cama e a cozinha parecia muito maior do que qualquer caminho que já tivesse percorrido.

Levantava-se apenas quando era necessário.

Comer alguma coisa.

Beber água.

Ir ao banheiro.

E, principalmente, aplicar a insulina do Salsicha, um labrador preto.

Era curioso.

Ele não conseguia cuidar da própria alma.

Mas não esquecia do cuidado que aquele animal dependia dele.

Todos os dias, no mesmo horário, levantava-se.

Pegava a medicação.

Fazia a aplicação.

Passava a mão sobre a cabeça do Salsicha.

E voltava para o quarto.

Talvez aquele fosse o único compromisso que ainda o ligava ao mundo.

Durante aquelas horas silenciosas, uma frase insistia em voltar à sua mente.

“Em um ano ou dois, você será grande.”

Ele já não sabia se lembrava exatamente das palavras ou se sua memória havia preservado apenas o significado.

Mas lembrava da promessa.

E, principalmente, do peso que ela carregava.

Naquele momento, ela parecia mais distante do que nunca.

Quase impossível de imaginar.

Porque havia uma diferença enorme entre receber uma promessa e esperar pelo seu cumprimento.

A primeira traz esperança.

A segunda revela o tamanho da nossa paciência.

Ele havia feito a mesma pergunta muitas vezes.

“Até quando?”

Era uma oração sincera.

Era uma oração de cansaço.

E também de revolta.

— Deus… eu sei que o Senhor tem um propósito. Mas até quando?

— Eu sempre preciso esperar.

Esperar.

Esperar.

E o Senhor nunca me diz quanto tempo falta.

Eu estou cansado de esperar.

O silêncio parecia ser a única resposta.

Naquela fase, ele também se lembrava do avô.

Não apenas da saudade.

Mas de uma frase que ficou guardada por anos.

— Filho, se aplique nos idiomas. O vovô vai pagar para você ir passear nos Estados Unidos e visitar sua tia na Alemanha.

Na época, ele era apenas uma criança ouvindo um sonho.

Não sabia o peso daquela frase.

Não sabia que algumas palavras permanecem guardadas dentro de nós até que o tempo revele o significado delas.

Anos depois, seu tio contou uma história que mudou a forma como ele enxergava aquela lembrança.

Falou do esforço que seu pai havia feito para que ele pudesse estudar nos Estados Unidos.

Foi então que ele juntou as peças.

Talvez o sonho do avô não fosse apenas uma viagem.

Talvez fosse a forma que ele havia encontrado de dizer que acreditava no futuro do neto.

De dizer, sem nunca usar essas palavras, que enxergava nele alguém capaz de ir mais longe.

Mas o tempo passou.

E algumas portas que imaginamos atravessar permanecem fechadas.

Essa era uma das dores mais silenciosas que carregava.

Não era apenas a saudade de alguém que partiu.

Era a saudade de um futuro que poderia ter existido.

Porque existem perdas que não doem apenas pelo que nos tiram.

Doem também por tudo aquilo que imaginávamos viver ao lado de quem amamos.

Naqueles quinze dias, ele acreditava que estava parado.

Mas ainda não sabia que, enquanto ele achava que nada acontecia, uma vida estava prestes a ser salva.

Na casa ao lado, uma senhora de noventa e um anos morava sozinha.

Naquele dia, ela caiu.

A queda foi forte.

O fêmur não resistiu.

E por algumas horas, aquela mulher permaneceu no chão, esperando por alguém que talvez não chegasse.

Até que ele ouviu.

No começo, pensou não ser nada.

Depois percebeu.

Algo estava errado.

Ele foi até o muro.

Chamou.

Sem resposta.

Não pensou muito.

Pulou.

Entrou.

Encontrou aquela senhora caída.

Naquele momento, não existia tristeza.

Não existia cansaço.

Não existia a pergunta sobre o futuro.

Existia apenas alguém precisando de ajuda.

Ele ligou para os filhos dela.

Chamou uma ambulância.

Ficou ali até que ela estivesse segura.

Depois voltou para casa.

Fechou a porta.

E deitou novamente.

Ele ainda acreditava que aqueles dias tinham sido perdidos.

Naquele dia, ele não recebeu uma resposta.

Recebeu a oportunidade de ser resposta para alguém.

E, sem perceber, começou a viver a promessa muito antes de reconhecê-la.

Alguns dias depois, decidiu tentar novamente.

Talvez fosse hora de reagir.

Colocou uma roupa de treino.

Foi para a academia.

Correu.

Sentiu o corpo trabalhando novamente.

Por alguns minutos, teve a sensação de que estava voltando.

Até que aconteceu.

Um passo errado.

Um buraco no caminho.

Uma queda.

A dor no tornozelo foi imediata.

Mas havia uma dor maior.

A pergunta que voltou junto com ele para casa.

— Até quando?

Naquela noite, sentado na cama, ele olhou para o próprio tornozelo.

Depois olhou para o teto.

E falou sozinho:

— Eu estou cansado de esperar.

Pela primeira vez em muitos dias, não pediu uma resposta.

Pediu apenas força.

Foi quando ouviu.

Toc.

Toc.

Toc.

Uma batida no portão.

Ele ficou parado.

Ninguém estava esperando por ele.

Muito menos naquele horário.

Então ouviu alguém chamá-lo pelo nome.

A voz era grave.

Profunda.

Estranhamente familiar.

Por um instante, teve a impressão de estar ouvindo um dos homens da família do pai.

Ele franziu a testa.

Pouquíssimas pessoas chegavam sem avisar.

E menos pessoas ainda o chamavam daquele jeito.

Apoiou uma das mãos na parede.

O tornozelo ainda doía.

Caminhou devagar até o portão.

Respirou fundo.

E abriu.

Do outro lado estava um homem.

A primeira coisa que percebeu não foi o rosto.

Foi a presença.

Havia algo nele difícil de explicar.

Não era a roupa.

Não era a aparência.

Era uma serenidade que parecia pertencer a alguém que já havia atravessado tempestades que ele ainda enfrentava.

Mais do que isso.

Era como se aquele homem não estivesse chegando.

Era como se tivesse voltado.

O visitante observou discretamente seu tornozelo.

Depois seus olhos voltaram aos dele.

— Ainda está doendo?

A pergunta parecia simples.

Mas carregava uma intimidade difícil de explicar.

Ele franziu a testa.

— Como você sabe?

O homem apenas sorriu.

Não respondeu.

Sem dizer uma palavra, aproximou-se.

Passou um dos braços por trás de seus ombros.

E o ajudou a caminhar até a porta da casa.

Nenhum dos dois disse nada durante aqueles poucos passos.

Naquele instante, ele imaginou que aquele homem estivesse apenas ajudando alguém com dificuldade para caminhar. Somente muito tempo depois compreenderia que, naquela noite, ele havia reencontrado muito mais do que o equilíbrio do próprio corpo.

Antes que pudesse entender por que estava aceitando a ajuda de um completo desconhecido, ouviu passos lentos vindo do corredor.

Era o Salsicha.

A idade e a diabetes já haviam comprometido boa parte da sua visão. Nos últimos meses, ele passara a reconhecer as pessoas muito mais pelo cheiro, pela voz e pelos passos do que pelos olhos. Talvez por isso tivesse se tornado desconfiado. Normalmente, qualquer desconhecido era recebido com cautela.

Naquela noite, foi diferente.

O labrador caminhou devagar até o visitante.

Parou diante dele.

Cheirou sua mão.

Depois voltou alguns passos, pegou seu brinquedo preferido e o deixou aos pés daquele homem.

Ele permaneceu imóvel.

Aquilo nunca acontecia.

O visitante abaixou-se.

Sem hesitar, fez carinho exatamente atrás da orelha esquerda do cachorro. O lugar de que ele mais gostava desde filhote.

O Salsicha fechou os olhos.

Respirou fundo.

E, lentamente, virou de barriga para cima.

Um gesto que reservava apenas para quem amava e em quem confiava completamente.

Ele sentiu um arrepio.

— Isso é…

Não conseguiu terminar a frase.

O visitante apenas sorriu.

Continuou fazendo carinho no cachorro por mais alguns segundos.

Depois levantou-se.

Entrou na casa.

Não perguntou onde ficava a sala.

Não perguntou se podia entrar.

Caminhava como quem conhecia aquele lugar há muito tempo.

Ele observava tudo em silêncio.

O sofá.

A estante.

As fotografias.

Os livros.

Não havia curiosidade em seu olhar.

Havia reconhecimento.

Ele respirou fundo.

Pela primeira vez desde que abrira o portão, sentiu medo.

Não do homem.

Mas da sensação inexplicável de que, de alguma forma, ele pertencia àquela casa.

O visitante voltou os olhos para ele.

Sorriu.

E repetiu:

— Ainda está doendo?

Naquele instante, ele percebeu que aquela noite seria diferente de todas as outras.

Porque algumas visitas chegam para mudar o futuro.

Mas algumas chegam porque o futuro se recusou a perder você.

O visitante caminhou lentamente pela sala.

Parou diante da estante.

Seus olhos percorreram os livros.

As fotografias.

Os pequenos objetos que pareciam sem importância.

Então voltou-se para ele.

— Posso lhe fazer uma pergunta?

Ele assentiu.

— O que aconteceu com você nesses quinze dias?

Ele deu um sorriso amargo.

— Nada.

O homem permaneceu em silêncio.

Apenas continuou olhando para ele.

Aquele silêncio o incomodava.

Ele tentou responder outra vez.

— Quer dizer… quase nada.

O visitante continuava sem dizer uma palavra.

Então ele começou a lembrar.

— Eu cuidei do Salsicha.

Pausa.

— Apliquei a insulina todos os dias.

Outra pausa.

— Salvei minha vizinha.

O silêncio permaneceu.

Foi ele mesmo quem voltou a falar.

— Acho que foi só isso.

O visitante sorriu discretamente.

— Então… você realmente não fez nada?

Ele abaixou os olhos.

Pela primeira vez, percebeu o peso da própria resposta.

O homem caminhou mais alguns passos pela sala.

Depois perguntou:

— Deus deixou você quinze dias sem fazer nada… ou deixou você quinze dias exatamente onde precisava estar?

Ele não respondeu.

Nunca havia pensado naquilo.

O visitante voltou a olhá-lo.

— Você passou quinze dias imaginando que Deus estava em silêncio.

Pausa.

— Mas quem disse que o silêncio significa ausência?

Ele permaneceu imóvel.

— Quando sua vizinha caiu… quem estava disponível para ouvi-la?

Ele respirou fundo.

— Eu.

— E se você não estivesse em casa?

Ele fechou os olhos.

Imaginou a senhora caída.

Sozinha.

Sem conseguir se levantar.

Esperando.

O silêncio tomou conta da sala.

Então o visitante disse, com a serenidade de quem apenas constatava um fato:

— Teria sido tarde demais.

Ele sentiu um aperto no peito.

O visitante não acrescentou mais nada.

Não era necessário.

Ele já havia entendido.

Depois de alguns instantes, perguntou em voz baixa:

— Então… Deus já estava trabalhando?

O homem sorriu.

— Você ainda acha que Ele começou a trabalhar quando bateu ao seu portão?

Silêncio.

Aquela pergunta permaneceu dentro dele.

O visitante aproximou-se da janela.

Observou a rua por alguns segundos.

Depois perguntou:

— O que mais você perdeu nesses últimos anos?

Ele respondeu quase sem pensar.

— Tempo.

O homem balançou a cabeça, suavemente.

— Tem certeza?

Ele pensou novamente.

Vieram outras respostas.

O avô.

O intercâmbio.

Os planos.

As portas que nunca se abriram.

A promessa que parecia distante.

Então respondeu:

— Acho que perdi futuros que imaginei viver.

O visitante permaneceu em silêncio.

Depois perguntou:

— E quem disse que eles foram perdidos?

Ele levantou os olhos.

— Como assim?

O homem não respondeu.

Fez apenas outra pergunta.

— Você acredita que Deus é capaz de usar apenas aquilo que aconteceu?

Ele franziu a testa.

Nunca tinha pensado naquela possibilidade.

O visitante continuou:

— Ou também pode usar aquilo que nunca aconteceu?

A sala voltou a mergulhar no silêncio.

Ele lembrou do avô.

Da viagem que nunca existiu.

Da saudade.

Da dor.

Pela primeira vez, começou a enxergar que até as ausências haviam ajudado a moldá-lo.

Depois de alguns minutos, fez a pergunta que carregava havia tanto tempo.

— Então eu estou sendo preparado?

O visitante sorriu.

Mas, em vez de responder, perguntou:

— O que aconteceu com você enquanto esperava?

Ele permaneceu calado.

Pensou no cachorro.

Na senhora.

Na dor.

Na oração.

No coração que tantas vezes precisou escolher não endurecer.

Demorou para responder.

— Eu… mudei.

O homem assentiu.

Um sorriso sereno apareceu em seu rosto.

— Antes de Deus levar alguém ao destino…

Pausa.

— Ele costuma transformar a pessoa que chegará lá.

Ele sentiu um nó na garganta.

Como se, pela primeira vez, a promessa deixasse de ser um lugar.

E passasse a ser um processo.

O visitante aproximou-se.

Olhou para ele.

E disse apenas:

— O caminho é mais importante que o destino.

Nenhum dos dois falou por alguns instantes.

Porque algumas frases não precisam ser explicadas.

Precisam apenas encontrar um coração preparado para ouvi-las.

O silêncio permaneceu na sala por alguns instantes.

Nenhum dos dois parecia sentir necessidade de preenchê-lo.

Então o visitante voltou a falar.

— Posso fazer mais uma pergunta?

Ele assentiu.

— O que mais você pediu a Deus durante esse tempo?

A resposta veio depressa.

— Que cumprisse a promessa.

O homem sorriu.

— Só isso?

Ele pensou por alguns segundos.

Depois respondeu:

— Que me dissesse quando.

Pausa.

— Eu só queria saber quando.

O visitante caminhou lentamente até a janela.

Olhou para a rua.

Depois perguntou:

— E se Ele tivesse dito?

Ele demorou para responder…

Ele demorou para responder.

Tentou imaginar.

Contaria os dias.

Faria planos.

Viveria esperando o calendário chegar ao momento certo.

Baixou os olhos.

— Acho que eu teria passado todo esse tempo olhando para o destino.

O visitante sorriu.

— Exatamente.

Silêncio.

— E teria deixado de viver o caminho.

As palavras permaneceram entre os dois.

Ele nunca havia pensado naquilo.

Durante anos, acreditou que a promessa começaria no dia em que se cumprisse.

O homem voltou-se para ele.

— Você sabe qual foi o meu maior erro?

Ele balançou a cabeça.

— Achei que Deus estivesse preparando a promessa.

Pausa.

— Quando, na verdade, estava preparando quem a receberia.

Ele sentiu um aperto no peito.

O visitante continuou.

— Imagine que alguém lhe entregue uma taça de cristal.

Silêncio.

— Você a colocaria nas mãos de uma criança pequena?

— Não.

— Por quê?

— Porque ela poderia deixá-la cair.

O visitante assentiu.

— Deus também ama demais algumas promessas para entregá-las antes da hora.

Ele permaneceu em silêncio.

Aquela imagem ficou gravada em sua mente.

O homem aproximou-se.

— Você passou muito tempo perguntando quando Deus abriria a porta.

Pausa.

— Mas quase nunca perguntou quem pisaria do outro lado dela.

Ele abaixou a cabeça.

Era verdade.

Sempre imaginou a casa.

Nunca o homem que pisaria dentro dela.

Sempre imaginou a promessa.

Nunca o coração que precisaria sustentá-la.

O visitante então fez a pergunta que parecia guardar desde o início da conversa.

— Diga-me…

Silêncio.

— Se Deus tivesse lhe dado tudo aquilo que você pediu há cinco anos…

Pausa.

— Você seria capaz de carregar o peso dessas bênçãos?

Ele não respondeu.

Porque sabia a resposta.

Não.

Naquela época, teria confundido conquista com identidade.

Resultado com propósito.

Reconhecimento com valor.

O visitante sorriu.

— Está vendo?

Pausa.

— O atraso nunca foi o problema.

O problema seria chegar antes de estar pronto.

Ele fechou os olhos.

Pela primeira vez, não sentiu tristeza pela demora.

Sentiu gratidão pelo processo.

Sem perceber, levou a mão ao peito.

Como quem conferia se algo ainda estava ali.

O visitante acompanhou o gesto.

Sorriu discretamente.

E disse apenas:

— Acima de toda promessa…

Pausa.

— Guarde o seu coração.

O visitante permaneceu em silêncio.

Depois caminhou lentamente pela sala.

Seus olhos passaram pela estante.

Pelos livros.

Pela janela.

Até pararem sobre uma fotografia.

Ele se aproximou.

Segurou o porta-retrato com cuidado.

Ficou alguns instantes apenas olhando.

Havia algo naquele silêncio.

Não era curiosidade.

Era respeito.

Quase saudade.

Ele observava a cena sem entender.

Então perguntou:

— Você o conheceu?

O visitante não respondeu imediatamente.

Continuou olhando para a fotografia.

Um sorriso discreto surgiu em seu rosto.

Era um sorriso de quem recordava algo precioso.

Só então voltou os olhos para ele.

— Você ainda acredita que decepcionou seu avô.

Ele sentiu o peito apertar.

Nunca havia contado aquilo a ninguém.

Nunca havia colocado esse medo em palavras.

O visitante continuou.

— Você acha que ele teria se decepcionado porque algumas portas ainda não se abriram.

Silêncio.

— Mas você está olhando para a história pelos olhos errados.

Ele permaneceu imóvel.

O homem voltou a olhar para a fotografia.

— Se ele pudesse ver o homem que você se tornou…

Pausa.

— Teria muito orgulho de você.

As lágrimas vieram antes que qualquer pensamento.

O visitante prosseguiu.

— Não pela casa que um dia você vai construir.

— Não pelas portas que ainda vão se abrir.

— Nem pelas promessas que ainda vai receber.

Mais um silêncio.

Então disse, quase num sussurro:

— Porque você herdou aquilo que ele tinha de mais precioso.

Ele respirou fundo.

A voz saiu embargada.

— O quê?

O visitante passou delicadamente o polegar sobre a moldura da fotografia.

Sorriu.

E respondeu:

— O coração.

A sala mergulhou em silêncio.

Ele olhava para a fotografia.

Depois para o visitante.

Depois voltava para a fotografia.

Como se tentasse encontrar alguma explicação.

O visitante continuou.

— Você continua escolhendo preservar o coração quando teria motivos para endurecê-lo.

— Continua tentando construir pontes onde seria mais fácil levantar muros.

— Continua fazendo o bem, mesmo quando nem sempre compreendem suas intenções.

Ele abaixou a cabeça.

Nenhuma daquelas batalhas era conhecida pelas pessoas.

Mas, de alguma forma, aquele homem parecia conhecê-las.

O visitante voltou a olhar para a fotografia.

Havia ternura em seu olhar.

Como quem contempla um velho amigo.

Então disse:

— Existem vitórias que ninguém viu.

Pausa.

— Mas ele veria.

As lágrimas já escorriam livremente.

A voz mal saiu.

— Você…

Silêncio.

— Você conhecia meu avô?

O visitante permaneceu imóvel.

Não respondeu.

Apenas sorriu.

Um sorriso sereno.

Cheio de paz.

Depois colocou cuidadosamente a fotografia de volta no lugar.

E mudou de assunto.

Como se algumas perguntas fossem importantes demais para serem respondidas.

Como se, às vezes, o silêncio pudesse curar mais do que qualquer explicação.

O visitante permaneceu mais alguns instantes diante da fotografia.

Depois caminhou lentamente até a mesa.

Ali estava a Bíblia.

A mesma que ele tantas vezes abrira procurando respostas.

O homem passou a mão sobre a capa.

Como quem reencontra algo conhecido.

Depois a abriu.

Não folheou.

Não procurou.

Abriu exatamente no lugar que desejava.

Ele observou em silêncio.

— O que é isso?

O visitante sorriu.

— Leia quando estiver pronto.

Com cuidado, fechou a Bíblia apenas o suficiente para marcar a página.

Depois caminhou até a porta.

Ele sentiu um aperto no peito.

Ainda havia tantas perguntas.

Sobre a promessa.

Sobre o futuro.

Sobre aquele homem.

Sobre aquela noite.

— Espera…

O visitante parou.

Mas não se virou.

— Eu ainda queria entender muitas coisas.

Um sorriso discreto apareceu em seu rosto.

— Eu sei.

Silêncio.

— Mas algumas respostas só fazem sentido depois da caminhada.

Ele abaixou os olhos.

A palavra voltou.

Caminho.

Mais uma vez.

Quando levantou a cabeça novamente, perguntou:

— Eu vou voltar a encontrar você?

O visitante permaneceu alguns segundos em silêncio.

Depois respondeu:

— Todas as vezes que você continuar caminhando.

Ele não compreendeu completamente.

Ainda não.

O homem abriu a porta.

A luz da rua iluminou a sala por um instante.

Antes de sair, disse apenas:

— Não pare no meio do caminho.

A porta se fechou.

Ele permaneceu imóvel.

O silêncio daquela casa já não era o mesmo.

Caminhou devagar até a mesa.

A Bíblia continuava aberta.

Sentou-se.

Respirou fundo.

E começou a ler.

“Meu filho, se entrares para o serviço de Deus, permanece firme na justiça e no temor, e prepara tua alma para a provação. Humilha teu coração, espera com paciência. Não te perturbes no tempo da infelicidade. Sofre as demoras de Deus. Dedica-te a Deus. Espera com paciência, para que, no derradeiro momento, tua vida se enriqueça. Aceita tudo o que te acontecer. Na dor, permanece firme. Na humilhação, tem paciência. Pois é pelo fogo que se experimentam o ouro e a prata, e os homens agradáveis a Deus, pelo cadinho da humilhação. Põe tua confiança em Deus e Ele te salvará. Orienta bem o teu caminho e espera nele.”

(Eclesiástico 2:1–6)

Ele leu uma vez.

Depois outra.

Na terceira leitura, as palavras já não pareciam escritas para alguém que viveu séculos antes.

Pareciam escritas para aquela noite.

Para aquele quarto.

Para aquele coração.

Foi então que compreendeu.

O visitante nunca tinha vindo responder à pergunta:

“Quando?”

Ele tinha vindo responder uma pergunta muito mais importante:

“Quem você precisa se tornar enquanto espera?”

Ele fechou os olhos.

Pela primeira vez desde que tudo começara…

Não sentiu pressa.

Sentiu paz.

Ele permaneceu sentado por muito tempo.

A Bíblia continuava aberta sobre a mesa.

As palavras de Eclesiástico ainda ecoavam dentro dele.

“Sofre as demoras de Deus.”

Pela primeira vez, aquela frase não parecia um peso.

Parecia um convite.

Levantou-se devagar.

Sem pressa.

Caminhou pela sala.

Foi então que percebeu algo.

Havia uma pequena chave sobre a mesa.

Ele parou.

Não estava ali antes.

Pegou-a entre os dedos.

Observou cada detalhe.

Conhecia aquele formato.

Conhecia aquela chave.

Era a chave da casa que, havia meses, ocupava suas orações.

Sorriu.

Não porque finalmente tivesse recebido uma resposta.

Mas porque compreendeu algo muito maior.

Deus nunca havia atrasado a promessa.

Estava preparando o homem que pisaria do outro lado daquela porta.

Seus olhos voltaram para a Bíblia.

Depois para a chave.

Então caminhou até a janela.

As cortinas ainda permaneciam fechadas.

As mesmas cortinas.

As mesmas que, durante tantos dias, impediram a luz de entrar.

Segurou o tecido.

Respirou fundo.

E as abriu.

A luz da manhã inundou a sala.

Ele permaneceu alguns instantes olhando para fora.

O mundo nunca tinha parado.

Quem precisava reaprender a enxergá-lo era ele.

Sem perceber, começou a caminhar pela casa.

Foi até a cozinha.

Voltou.

Passou pela sala.

Só então notou.

O tornozelo ainda estava machucado.

Mas já não ocupava seus pensamentos.

Sorriu.

Algumas dores deixam de nos conduzir muito antes de deixarem o nosso corpo.

Parou novamente diante da fotografia do avô.

Olhou para ela por alguns segundos.

Depois, quase sorrindo, disse em voz baixa:

— Acho que agora eu entendi.

Pegou a chave.

Guardou-a no bolso.

Não como quem finalmente possuía uma casa.

Mas como quem finalmente estava pronto para entrar nela.

Naquela manhã, ele não sabia quando a promessa aconteceria.

Curiosamente…

Já não precisava saber.

Porque, enfim, compreendera que Deus nunca esteve apenas preparando o destino.

Estivera preparando o caminhante.

E, naquele instante, ele teve a certeza de que a promessa se cumpriria.

Não porque aprendera quando.

Mas porque conhecia Aquele que a havia feito.

“A visão ainda está para cumprir-se no tempo determinado; ela se apressa para o fim e não falhará. Se tardar, espera-a, porque certamente virá, não tardará.”

(Habacuque 2:3)

 
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