Mude o seu referencial

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Mude o seu referencial

“Quem somente observa o vento nunca semeará, e o que olha para as nuvens nunca segará.” (Eclesiastes 11:4)

Meu bisavô, João Machado de Araujo, foi prefeito de Sorocaba e construiu, com muito trabalho e visão de futuro, um patrimônio significativo. Meu avô, Claudio Cesar Machado de Araujo, deu continuidade a esse legado, ampliando-o por meio de muito esforço e dedicação. Apesar dos resultados alcançados, era um homem simples, que valorizava a educação e a inteligência muito mais do que o dinheiro. Embora eu seja fruto dessa história familiar, cresci em uma realidade marcada por influências bastante diferentes, o que muitas vezes moldou a forma como enxerguei minha própria trajetória.

Em 2021, completaram-se vinte anos do falecimento do meu avô, uma data que mexeu profundamente comigo. Naquele período, eu me vi refletindo sobre sua vida, seus ensinamentos e o legado que havia deixado. Como de costume, procurei homenageá-lo por meio da escrita, mas, em meio ao contexto da pandemia, acabei mergulhando em lembranças e histórias que despertaram sentimentos de tristeza e dor. Ao revisitar essas memórias, vieram à tona questionamentos, saudades e feridas que eu imaginava já ter superado.

Diante disso, alguns amigos sugeriram que eu buscasse ajuda terapêutica. A princípio resisti à ideia. Minhas experiências anteriores haviam sido marcadas por interrupções e pela dificuldade de construir um vínculo duradouro com os profissionais que me atenderam. Ainda assim, após alguma insistência, decidi iniciar o acompanhamento.

Ao longo da vida, muitas vezes me senti julgado por pessoas próximas. Parte disso talvez se explique pelo contraste entre as realidades que fizeram parte da minha formação. Pelo lado paterno, havia uma história marcada pelo legado construído ao longo de gerações. Pelo lado materno, havia uma trajetória de muito trabalho e superação, realidade na qual fui efetivamente criado. Cresci transitando entre esses dois mundos e, por muito tempo, tive dificuldade em compreender onde me encaixava nessa história.

Com o passar do tempo, desenvolvi uma mentalidade de escassez como forma de defesa. Em vez de enxergar minha história pelo que havia recebido, eu a interpretava principalmente pelo que havia perdido. Duas das pessoas mais importantes da minha vida já não estavam presentes, e eu sentia que as perdas superavam qualquer benefício que pudesse ter surgido em decorrência delas. Se pudesse escolher, trocaria qualquer bem material por mais um momento ao lado dessas pessoas. Durante a terapia, fui levado a refletir sobre essa forma de enxergar a realidade e a perceber que ela não me ajudava a lidar com a dor nem a seguir em frente.

Em uma conversa sobre luto com Amanda, minha esposa na época, ela compartilhou comigo sua experiência durante a pandemia. Com o falecimento de sua mãe, não houve velório nem cerimônia de despedida. Para ela, essa ausência foi dolorosa, pois acreditava que a presença de amigos e familiares prestando homenagens a confortaria. O que poderia ter sido um momento de acolhimento e despedida tornou-se, na verdade, uma lacuna silenciosa, algo que impactou profundamente sua forma de vivenciar o luto.

O relato de Amanda me levou a refletir sobre como diferentes pessoas lidam com as perdas de maneiras distintas. Em especial durante a pandemia, quando a ausência de velórios, enterros e outras formas de despedida alterou profundamente a maneira como muitos viveram seus processos de luto. Ao pensar sobre isso, recordei-me de alguns episódios da série The Big Bang Theory que abordam, de forma inesperadamente sensível, temas como perda, frustração e mudança de perspectiva.

No último episódio da décima primeira temporada da The Big Bang Theory, Sheldon e Amy estão prestes a se casar. Enquanto se prepara para a cerimônia, Sheldon tenta ajustar o nó da gravata repetidas vezes, incomodado por não conseguir deixá-lo perfeitamente simétrico. Amy observa a situação e sugere que talvez a gravata não precise ser perfeita. Para ela, um pouco de assimetria tornava o visual mais interessante. A observação parece trivial, mas acabaria desencadeando uma das descobertas mais importantes da trajetória do personagem.

Instantes antes do casamento, Mary Cooper, mãe de Sheldon, tenta ajustar novamente a gravata. Ele a impede, dizendo que decidiu deixá-la levemente assimétrica, pois aquela pequena imperfeição fazia parte da nova forma como passara a enxergar as coisas. Mary então comenta que, às vezes, as coisas imperfeitas são capazes de tornar outras perfeitas.

A partir dessa percepção, Sheldon começa a reconsiderar o problema que vinha tentando resolver. Ele percebe que suas equações tentavam descrever um universo imperfeito a partir de um modelo excessivamente idealizado. Para que a teoria fizesse sentido, seria necessário incorporar a própria imperfeição como parte da estrutura fundamental. Dessa percepção, nasce aquilo que Sheldon passa a chamar de Super Assimetria.

Desde o início da série The Big Bang Theory, a trajetória de Sheldon Lee Cooper é marcada por seu gênio teórico e pelo sonho de conquistar o Prêmio Nobel. A teoria da Super Assimetria parecia finalmente aproximá-lo desse objetivo. À medida que o artigo se encaminhava para publicação, Sheldon e Amy pedem que amigos próximos revisem as referências do trabalho. Durante essa revisão, eles acabam encontrando um artigo russo capaz de refutar a teoria da Super Assimetria.

Leonard, melhor amigo de Sheldon, é o responsável por dar a notícia. À primeira vista, Sheldon aparenta receber a informação com calma, mas a reação não demora a se transformar em frustração intensa. Ele quebra o quadro onde estavam registradas as ideias da teoria e se dirige ao quarto aos gritos.

Ao tentar consolá-lo, Amy revela que também está profundamente abalada. Ela vinha tentando manter a estabilidade emocional do casal, mas compartilha da mesma frustração, já que a teoria havia sido construída ao longo do casamento dos dois. Durante meses, acreditaram que estariam prestes a transformar os rumos da ciência — e agora tudo parecia ter sido em vão.

Após saírem para buscar o jantar, Leonard e Penny, preocupados com a falta de notícias desde a refutação da teoria, decidem passar no apartamento para verificar como Sheldon e Amy estavam. Ao chegarem, encontram o casal sentado no sofá, de pijama, visivelmente desanimado. As falas deles revelam uma descrença profunda em relação à própria capacidade. Tentando animá-los, Penny diz que aquilo poderia ser apenas uma derrota temporária — parte do processo — e que ainda era necessário seguir em frente, como em um jogo que ainda não havia terminado. Leonard também tenta encorajá-los, afirmando que ambos são, individualmente, as pessoas mais inteligentes que ele conhece e que, juntos, seriam capazes de encontrar novas soluções.

Sheldon agradece as tentativas de apoio, mas pede que parem. Para ele, não há nada que possa ser feito para reverter a situação. Em sua visão, a perda da teoria representa algo definitivo. Amy concorda com o marido. Ela afirma que ambos trabalharam intensamente naquele artigo e que todo o esforço parecia ter sido em vão. Diante disso, não acreditam que palavras de incentivo sejam suficientes para mudar o que estão sentindo, pois apenas eles compreendem a profundidade do significado daquela pesquisa.

Na sequência, o grupo de amigos se reúne para jantar, como já era habitual entre eles. Antes da refeição, Leonard e Penny orientam Howard, Bernadette e Raj a evitarem determinados assuntos durante a conversa. A preocupação era que qualquer menção ao projeto pudesse reabrir a dor recente, seja pelo sentimento de fracasso, seja pela lembrança do que poderia ter sido alcançado.

Ao chegarem para o jantar, Amy questiona o que os amigos estavam conversando antes de sua chegada. Bernadette tenta contornar a situação e responde de forma breve, dizendo que não era nada importante. Sheldon, porém, interpreta a resposta de maneira literal e reage imediatamente, dizendo que aquilo lhe soa como um reflexo da própria carreira naquele momento. Após a resposta, o casal se levanta e retorna para o apartamento, encerrando a interação abruptamente.

Na sequência, Amy desperta de forma repentina e encontra Sheldon em um comportamento incomum: ele está comendo, lendo, assistindo televisão e ouvindo rádio ao mesmo tempo, algo que, até mesmo para ele, parecia excessivo. Ela o observa comendo aspargos e questiona, lembrando que ele sempre afirmou não gostar daquele alimento. Sheldon responde que também achava isso verdadeiro, assim como acreditava que a Super Assimetria era uma boa ideia. Em seguida, questiona a própria confiabilidade de suas certezas: sobre o que mais estaria enganado? Assustada, Amy pergunta se ele estava reavaliando todas as suas crenças e opiniões. Sheldon confirma e explica que estava seguindo o exemplo do filósofo do século XVII René Descartes, que submeteu todas as suas crenças à dúvida radical com o objetivo de reconstruí-las sobre fundamentos mais sólidos.

Amy tenta compreender a angústia de Sheldon, relacionando-a diretamente à refutação do artigo e afirmando que também se sente profundamente frustrada com toda a situação. Sheldon, por sua vez, diz não ser mais capaz de confiar nos próprios instintos. A sensação de erro se estende para além da teoria, afetando sua percepção sobre si mesmo. Amy então o contesta, afirmando que o fato de ele estar errado sobre o artigo não significa que esteja errado sobre tudo o que pensa ou sente.

Amy vai até o apartamento de Leonard e Penny para relatar sua preocupação com Sheldon. Ela afirma nunca tê-lo visto em um estado tão abatido e relata que ele passou a reavaliar praticamente todas as suas crenças e certezas. Ela também expressa preocupação de que esse processo de questionamento interno possa vir a afetar diretamente o relacionamento dos dois.

Leonard lembra da existência de um vídeo gravado por Sheldon quando ele ainda era criança. Trata-se de um discurso motivacional que ele havia deixado registrado e confiado a amigos próximos, como algo a ser utilizado em uma situação de grande necessidade.

Amy retorna ao apartamento com o videocassete em mãos, trazendo a fita indicada por Leonard. Animada, ela acredita ter encontrado algo capaz de ajudar Sheldon e relata que se trata de um discurso gravado por ele ainda na infância. Sheldon explica que, ao assistir ao filme De Volta para o Futuro II, imaginou que um dia poderia precisar de uma mensagem de si mesmo no passado, caso enfrentasse momentos difíceis. O vídeo então começa com a seguinte fala: “Sheldon, nunca se esqueça, não importa o quanto as coisas pareçam ruins, você sempre…”. No entanto, antes que a mensagem seja concluída, a gravação é interrompida e substituída por um jogo de futebol americano.

Zangado, Sheldon comenta com Amy que o pai havia gravado um de seus jogos de futebol da infância no lugar da mensagem que ele esperava encontrar. Em seguida, ele se retira para o quarto, recusando qualquer tentativa de ajuda. Antes de sair completamente da conversa, ele diz que, se ela realmente quisesse ajudá-lo, poderia construir uma máquina do tempo para que ele voltasse ao passado e avisasse a si mesmo mais jovem para desistir de tudo, já que, em sua visão, nada aconteceria como ele gostaria.

Leonard e Penny, ainda preocupados com o estado de Sheldon, entram em contato com Beverly Hofstadter, mãe de Leonard e psiquiatra experiente. Eles relatam os comportamentos recentes do amigo e a dificuldade dele em lidar com a situação. Beverly explica que, possivelmente, Sheldon está passando por um processo de luto. Segundo ela, esse estado pode surgir diante de qualquer perda emocional significativa, e tende a ser proporcional ao grau de importância afetiva envolvido: quanto maior a importância atribuída a algo, maior tende a ser o impacto de sua perda. Penny pergunta o que poderia ser feito para ajudá-lo, e Beverly responde que o luto é um processo. Diferentes culturas desenvolveram rituais e práticas próprias para lidar com esse tipo de dor. No antigo Egito, por exemplo, havia a mumificação; já no Tibete, os chamados enterros celestiais.

Novamente, o casal de amigos se dirige ao apartamento de Sheldon e Amy na tentativa de ajudá-los. Eles propõem a realização de um funeral simbólico, como uma forma de permitir que o casal se despeça adequadamente do artigo. Durante a cerimônia simbólica numa banheira em chamas, Sheldon reconhece que aquilo é apenas uma teoria científica, mas para ele representava mais do que isso: descrevia o universo de uma maneira nova e bela, um universo que ele gostaria que fosse o real, embora reconheça que não é. Amy então coloca fogo nas folhas onde a teoria estava registrada, encerrando o ritual.

Desta vez, Sheldon desperta de forma súbita e encontra Amy assistindo novamente ao vídeo, na tentativa de verificar se ainda havia algo aproveitável na gravação. Ele afirma que não é necessário continuar, pois já se lembra de todo o conteúdo. Em seguida, a imagem do vídeo mostra George Cooper, seu pai, em um discurso para o time que treinava: “Sei que estamos perdendo por muito. E, sendo honesto com vocês, provavelmente não vamos vencer. Na verdade, muito provavelmente não venceremos. E, se perdermos, precisam entender que isso não faz de vocês perdedores. Descobrimos quem somos e do que somos feitos tanto nas derrotas quanto nos sucessos — talvez até mais nas derrotas. Podem ir para o segundo tempo com pena de si mesmos ou voltar e fazer algo a respeito.”

Sheldon se recorda do jogo e comenta que ele foi tão ruim que, em determinado momento, até a líder de torcida do time adversário tentou marcar um ponto. Amy observa que o discurso de seu pai foi inspirador, mas questiona se ele realmente teria algum impacto prático naquele momento. Sheldon, porém, responde refletindo que, para ele, o jogo parecia ter acabado, mas na realidade eles estavam apenas na metade da partida — e ainda havia muito a ser feito na física.

Sheldon reflete que sempre enxergou sua própria trajetória e a de seu pai como muito diferentes, mas percebe que ambos lidaram com reveses, frustrações e momentos de ruptura. Talvez, em um nível mais profundo, suas vidas sejam mais parecidas do que ele imaginava. Amy então acrescenta que, de um ponto de vista, a vida de Sheldon e a de seu pai podem ser consideradas assimétricas, mas, de outro, também podem ser vistas como simétricas. Ela conclui que simetria e assimetria podem depender do observador. Nesse sentido, o artigo russo não estaria simplesmente errado, mas correto apenas sob uma perspectiva limitada. Um olhar mais amplo revelaria que a teoria não foi refutada — apenas estava incompleta — e que poderia ser ainda mais profunda do que a formulação original sugeria.

Qual é a sua perspectiva para lidar com o luto? Qual é o seu referencial? Que mudanças na forma de enxergar uma situação são necessárias para que novos resultados se tornem possíveis? Entusiasmados com a descoberta, Sheldon e Amy seguem para corrigir o artigo. A cena se encerra com Sheldon olhando para o vídeo de seu pai e expressando gratidão. Alerta de spoiler: a teoria é posteriormente comprovada, e no penúltimo episódio os personagens são indicados à honraria máxima da física, recebendo o prêmio no episódio final.

A história relatada acima evidencia a importância das companhias e das pessoas em quem confiamos, bem como das nossas próprias crenças mais profundas, como elementos que nos direcionam em momentos de reveses. É curioso perceber que, embora Sheldon estivesse em um processo de reavaliação radical de suas certezas, ele recorreu a algo que já carregava dentro de si, ainda que isso só tenha sido ativado a partir de uma relação com alguém próximo.

Devemos nos atentar a um fator interessante: ao tentar animar o casal, Penny utiliza a metáfora de que eles estão apenas na metade do jogo. A princípio, essa ideia é rejeitada como simplista, mas é exatamente essa mesma metáfora, reaparecendo sob outra perspectiva, que mais adiante ajuda a reorganizar e expandir a própria teoria. Isso sugere que muitas vezes já dispomos das ferramentas necessárias para lidar com determinadas situações, mas é a nossa ótica que define se seremos capazes de utilizá-las da melhor maneira. Não podemos mudar o que aconteceu, mas podemos mudar o referencial a partir do qual interpretamos o que aconteceu.

Sheldon e Amy permanecem inicialmente presos na negação, estagnados pela frustração, mas é somente quando aceitam a realidade e passam a agir sobre ela que conseguem encontrar novas respostas. Em outras palavras, a negação paralisa; a aceitação nos direciona para novos caminhos.

É triste pensar na perda de alguém querido, mas talvez a pergunta mais importante não seja apenas o que foi perdido, mas o que pode ser ressignificado a partir daquilo que se viveu. Machado de Assis dizia que há quem chore por saber que as rosas têm espinhos, e há quem sorria por saber que os espinhos têm rosas. Qual perspectiva escolhemos sustentar?

Desta forma, o luto não é apenas um evento, mas um processo de reorganização interna. Ele nos expõe a dúvidas, medos e fragilidades. Quando perdemos algo ou alguém importante, somos colocados diante de uma reconfiguração profunda de sentido. Esse caminho pode ser mais difícil quando não há sustentação interior, mas pode ser atravessado com mais clareza quando há fé, direção e confiança em Deus.

No fim, talvez não se trate de respostas prontas, mas da perspectiva que escolhemos — e da confiança que depositamos em Deus ao longo do processo.

“Pedi, e dar-se-vos-á; buscai e achareis; batei, e abrir-se-vos-á. Pois tudo o que pede recebe; o que busca encontra; e, a quem bate, abrir-se-lhe-á.” (Mateus 7:7-12)

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