A Vida tem o sabor do tempero que escolhemos dar a ela
“Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovação da sua mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.” (Romanos 12:2)
Estávamos voltando de uma balada no Arca Spaces, em São Paulo, para a qual eu havia convidado Amanda, minha namorada na época. Muito tempo antes, ela havia me contado sobre a morte de sua mãe, ocorrida no dia 02 de maio. Por uma coincidência do calendário, o aniversário da sua mãe era também no dia 02 — mas em agosto. A partir dali, Amanda fizera um decreto silencioso: todos os dias 02 seriam ruins. E, curiosamente, quando esses dias chegavam, o decreto se cumpria. Ela ficava mal, se isolava, ruminava a perda.
Aquilo nunca me saiu da cabeça. Quando surgiu a oportunidade de ir a essa balada — entre as atrações da noite, tocaria um DJ brasileiro, Vintage Culture, que ela tinha muita vontade de ouvir pessoalmente —, não hesitei em convidá-la. Era a chance de tirá-la de casa num dia 02 e mostrar que era possível vivê-lo de outro jeito.
Na volta, comentei que tinha algo para dizer a ela, mas que falaríamos no final do dia. Ela insistiu para que eu dissesse logo. Então perguntei:
— Que dia é hoje?
— Dia 02 — respondeu.
— Engraçado. Já são oito horas da manhã. Um terço do dia se passou e até agora não ouvi nada sobre ser um dia ruim. Aprenda, Amanda: a vida é como o alimento — tem o sabor do tempero que escolhemos dar a ela.
Depois disso, nunca mais ouvi dela a mesma relação com os dias 02.
Há uma coincidência nessa história que até hoje me faz sorrir. Quando Amanda me contou sobre a mãe, mencionou a data do aniversário: 02 de agosto. O mesmo dia em que eu faço aniversário. Aquilo sempre me chamou a atenção. Relendo a história agora, percebo algo bonito: a data que para ela sempre fora um gatilho de dor passou a ser também o aniversário de alguém que a ajudou a mudar o tempero. Dizem que as coincidências são uma forma de Deus ficar no anonimato. Talvez seja exatamente isso.
Essa história aconteceu anos depois de uma das minhas próprias experiências com o luto. Em fevereiro de 2016, perdi meu pai. No ano seguinte, no mesmo mês, houve o casamento da minha prima Silvia. Um evento planejado, esperado. Diferente do velório do meu pai, que não fora planejado por ninguém. A coincidência de datas me atingiu como um aviso: ali, naquele casamento, eu inevitavelmente lembraria dele. E foi exatamente o que aconteceu.
Cheguei acompanhado de minha tia Elizabeth e nos sentamos. Em certo momento, alguém atrás de nós começou a explicar quem eram os parentes do Rodolfo, meu tio e pai da noiva. Citou o Doutor Claudio, meu avô. Depois mencionou dois Clóvis: o Doutor Clóvis, meu tio-avô, e o Clóvis Sobrinho, meu pai, falecido no ano anterior. O atento ouvinte da conversa que se passava no banco de trás era eu.
Chorei. Um choro compulsivo, descontrolado, exatamente como eu previra. Saí da igreja porque não queria ser visto daquela forma. Passei o resto da noite do lado de fora, tentando me recompor.
Tempos depois, conversando com o Klaus, um amigo que fiz num jogo online, o Tibia, chegamos ao tema do luto. Ele acabara de perder o sogro. A família faria uma viagem no fim de semana seguinte, algo que sempre fora organizado pelo sogro. “Vai ser um momento difícil”, ele me disse. As palavras já carregavam a sentença: difícil, doloroso, inevitavelmente triste.
Eu poderia ter dito a ele o que me disseram tantas vezes: “é assim mesmo”, “o tempo cura”. Em vez disso, pedi que relesse suas próprias palavras. “Você já decretou que será difícil”, observei. “E se vocês tentassem fazer as coisas de um jeito diferente desta vez? Outro hotel, outras praias, outros restaurantes?” Ele concordou. Após a viagem, o feedback foi positivo — não porque a ausência não pesasse, mas porque eles descobriram que podiam carregá-la sem que ela ocupasse todo o espaço.
O que essas três histórias têm em comum? Em todas elas, o que determinou a experiência não foi o evento em si, mas a forma como o encaramos.
Infelizmente, não podemos controlar os estímulos externos. O cheiro que lembra alguém, a música que toca sem avisar, a data que insiste em voltar todo ano. Esses gatilhos virão. Mas a reação a eles — essa nos pertence.
Rick Warren escreveu que a vida é 10% o que nos acontece e 90% como escolhemos reagir. Brian Tracy complementa: enxergamos não o que está diante de nós, mas aquilo em que já acreditamos. Em outras palavras: se eu acredito que o dia 02 será ruim, procurarei — ainda que inconscientemente — razões para confirmar essa crença. O mesmo vale para um casamento no mês de um falecimento, e para uma viagem que outrora era organizada por alguém que já não está mais presente.
A mente é o campo de batalha.
O que mudou para Amanda não foi o dia 02 — ele continuou chegando todo mês. O que mudou foi o tempero que ela passou a colocar nele. O que mudou para Klaus não foi a ausência do sogro, mas a decisão de viver aquela viagem com novas cores, novos sabores. O que mudou para mim não foi a lembrança do meu pai — ela permanece —, mas a compreensão de que chorar não significa estar derrotado, e que fugir da igreja naquele dia foi parte do meu processo, não uma sentença.
Carlos Drummond de Andrade, no texto Definitivo, diz que nossa dor não vem do que vivemos, mas do que sonhamos e não se cumpriu. Sofremos, escreve ele, “porque automaticamente esquecemos o que foi desfrutado e passamos a sofrer pelas nossas projeções irrealizadas”. A pergunta que Drummond nos deixa é: como aliviar a dor do que não foi vivido? E ele mesmo responde: “Se iludindo menos e vivendo mais.” Ou, em outras palavras, fazendo a nossa parte, dando nosso melhor a cada dia, para que no final das contas, não sobrem remorsos sobre aquilo que deixamos de fazer.
A espiritualidade tem papel central nessa transformação. A renovação da mente, como nos ensina o apóstolo Paulo, é um convite diário. Não é negação da dor — é recusa em ser definido por ela. É escolher, como Davi, não se amedrontar diante da oportunidade que Deus coloca à frente, ignorando as vozes que zombam. É fazer como Ana, que não deixou de orar mesmo quando a confusão interior era tão grande que o sacerdote a julgou bêbada. É lutar como Jacó, que se agarrou ao anjo e disse: “Não te deixarei ir, a não ser que me abençoes.”
Cuidar da mente é também cuidar do espírito. A oração não elimina magicamente os estímulos externos, mas nos ancora em algo maior do que a oscilação das circunstâncias. Como escreveu Reinhold Niebuhr em sua célebre oração da serenidade:
“Senhor, conceda-me a serenidade para aceitar aquilo que não posso mudar, a coragem para mudar o que me for possível e a sabedoria para saber discernir uma da outra.”
Você não pode mudar o que aconteceu. Mas pode mudar o tempero. A vida continuará servindo os mesmos ingredientes — perdas, datas, ausências, saudades, e até mesmo questões inesperadas, mas o sabor final não está no alimento. Está em quem o prepara e na forma como decide prepará-lo.
“E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os seus corações e as suas mentes em Cristo Jesus.” (Filipenses 4:7)






