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O Milagre Chamado Vitória

Quando voltei a orar pelo impossível

“Há mais coisas entre o céu e a terra, Horácio, do que sonha a nossa vã filosofia.”
(William Shakespeare, Hamlet)

A perda repentina do meu pai, em 2016, foi o momento mais difícil da minha vida.
Em meio à dor daquele período, duas presenças silenciosas foram fundamentais para que eu conseguisse atravessar aqueles dias: meus cães labradores, Nika e Salsicha.
Eles estavam ali todos os dias. Sem discursos, sem explicações, apenas presentes. Muitas vezes, quando a tristeza parecia grande demais, era a companhia deles que me trazia algum conforto.
Em junho de 2023, porém, uma nova prova surgiu. Descobri que a Nika estava com câncer de fígado.
Iniciamos o tratamento e seguimos lutando por alguns meses. Durante esse período, fiz muitas orações. Em uma delas, disse a Deus que aceitava a Sua vontade. Se fosse necessário levá-la, eu me renderia. Meu único pedido era que ela não sofresse, pois era um animal maravilhoso e não merecia dor.
Mas naquela oração houve algo ainda mais incomum.
Em um momento de profunda tristeza, eu disse a Deus que, se algum dia ela quisesse voltar para casa, seria bem recebida. Pedi também que, se isso acontecesse, Ele me capacitasse para reconhecê-la.
Naquele instante falei algo que nunca imaginei que pudesse acontecer.
Eu disse que ela poderia voltar como uma ave… ou até mesmo como um gato — algo ainda mais improvável, porque eu jamais havia imaginado ter um gato na vida.
Em outubro daquele ano, o estado da Nika piorou drasticamente.
Cheguei em casa certo dia e a encontrei muito mal. Percebi que ela poderia sofrer muito em seus últimos momentos e eu a amava demais para permitir isso.
O médico veterinário André Luiz Franco, mesmo estando de folga naquele dia, foi até o hospital para me prestar assistência. A gravidade do quadro era evidente.
Foi então que decidi permitir que ela partisse pela eutanásia.
Foi uma despedida dolorosa.
O tempo passou.
E, sem perceber, algo dentro de mim também mudou.
Continuei acreditando em Deus, mas minhas orações já não eram mais as mesmas. Eu ainda agradecia e conversava com Ele, mas havia deixado de pedir certas coisas — há mais tempo do que imaginava.
A verdade é que sempre fui o tipo de pessoa que tenta resolver tudo na própria força — talvez por medo da frustração, talvez pelo cansaço de esperar respostas que às vezes parecem que nunca vão chegar.
No fundo, eu já não sabia mais como orar pelo impossível.
No início de 2025, comecei a ouvir algo estranho sempre que ia sair de carro: pequenos miados finos. Eu ouvia aqueles sons, mas não conseguia identificar de onde vinham.
Na região onde moro, existem muitos gatos selvagens. Apesar de nunca ter tido gatos e carregar certo preconceito por tudo o que ouvia sobre eles, eu os respeitava como criaturas de Deus. Fazia cerca de um ano que eu deixava ração para alguns deles no quintal. Acredito que entre eles estava a mãe da minha Vitória.
Os miados continuaram por alguns dias até que finalmente descobri de onde vinham.
Eles vinham de dentro de uma edícula no fundo do meu quintal — um lugar que estava com portas e janelas fechadas.
Ali encontrei um filhote de gato preto, muito amigável. Dias depois, percebi que havia mais um. Esse segundo era bem mais arisco e não deixava que eu me aproximasse.
Comecei a cuidar deles.
Pouco tempo depois, notei que o filhote mais dócil estava com dificuldade para abrir um dos olhos. Fiquei preocupado. Era sábado, 12 de abril de 2025, e eu tinha um curso de futebol e futsal na faculdade. Antes de sair, levei o pequeno gato à clínica veterinária.
Poucos dias depois, recebi a notícia de que ele havia falecido. Também fui informado de que a mesma doença poderia acometer o irmão.
Comecei imediatamente o tratamento indicado pela veterinária e decidi levá-lo para uma consulta.
Foi então que descobri algo curioso. Na consulta com a Dra. Thaís, soube que aquele gato, na verdade, era uma gata.
Enquanto ela se recuperava, comecei a procurar um lar para ela, pois minha intenção inicial era apenas cuidar até que ela estivesse bem e depois doá-la, mas algo inesperado aconteceu.
No dia 26 de maio de 2025, eu ouvia uma pregação de Deive Leonardo enquanto estava em casa. Na mensagem, ele dizia:
“Eu tenho uma palavra pra você que não ora mais pelo milagre que precisa porque orou uma vez e nada aconteceu… então você frustrou. Vestiu a falta de fé de gratidão. Diz que agora não tem mais coragem de pedir, só agradecer.”
Aquelas palavras me atingiram de uma forma muito pessoal, porque descreviam exatamente como eu estava.
Em outro momento da mensagem ele declarou:
“Ainda hoje você vai ter a certeza de que Ele está ouvindo você e o seu milagre vai acontecer.”
Naquele mesmo dia, algumas pessoas estavam em minha casa. Em determinado momento, uma delas sugeriu que eu desse a gata para ela.
Eu estava na cozinha, lavando louças, foi então que algo estranho aconteceu.
Um copo escapou da minha mão e caiu no chão, quebrando-se.
Mais tarde, as pessoas foram embora. Fui para o meu quarto, coloquei o fone e comecei a ouvir a mensagem novamente — dessa vez, sozinho, tentando absorver sem nenhuma distração.
Foi então que a gata se aproximou de um porta-retratos sobre o móvel. Nele havia fotos dos meus labradores. Ela tocou com o focinho justamente na foto da Nika.
Naquele exato momento, de uma forma sobrenatural, lembrei-me de uma oração esquecida. Daquela que fiz em 2023, quando a Nika partiu.
Tudo pareceu se conectar dentro de mim.
Mas junto daquela sensação também veio o medo de estar enganado. Eu já havia me enganado muitas vezes e não queria que isso acontecesse novamente.
Em silêncio, fiz uma nova oração — pedia por confirmação. Pouco tempo depois fui para a faculdade.
Para minha surpresa, encontrei um labrador que trabalhava como cão de apoio emocional, fato que nunca havia acontecido nos dois anos de curso.
Conversei com sua dona e acabei relatando o que havia acontecido comigo naquele dia. Então ela compartilhou algo curioso: contou que também havia tido um animal que apareceu em sua casa de forma inexplicável. Segundo ela, o animal parecia conhecer todos os espaços da casa e era respeitado pelos outros animais, como se sempre tivesse vivido ali.
Voltei para casa refletindo sobre tudo aquilo. Naquela mesma mensagem, outra frase chamou minha atenção:
“Ao invés de dizer que não quer, diga a verdade.”
Então percebi algo importante. Eu ainda anseio por um milagre.
O milagre que eu realmente preciso tem nome: o encerramento de um longo e desgastante processo de inventário familiar — do meu avô, falecido em 2001, no qual entrei substituindo meu pai — que mesmo após tantos anos ainda se arrasta.
Depois daqueles acontecimentos, voltei a orar especificamente por isso.
Mesmo sem uma resolução definitiva, algo dentro de mim começou a reacender.
Os problemas continuam. O conflito tem se intensificado. O cenário voltou a parecer impossível muitas vezes, mas percebi que, apesar de tudo isso, eu já não estou espiritualmente no mesmo lugar.
Eu voltei a crer e orar para que Deus encerre, de uma vez por todas, esse desgastante cenário.
Curiosamente, após retomar essas orações, aconteceu algo que nunca havia ocorrido antes: toda a minha família se reuniu para conversar após 24 anos.
Talvez ainda não seja o desfecho final que eu espero. O inventário ainda precisa ser concluído.
Mas uma coisa eu aprendi com toda essa experiência. Mais do que respostas definitivas, aquele momento me levou de volta à oração e ao relacionamento com Deus. O maior milagre não foi a reunião — foi aquilo que reacendeu dentro de mim.
Entre coincidências e lembranças antigas, percebi que nem tudo na vida precisa ser completamente explicado para ter significado.
Hoje aquela pequena gata continua comigo e recebeu um nome que carrega um significado especial: Vitória.

“E alguns dias depois, entrou outra vez em Cafarnaum, e soube-se que ele estava em casa. E logo se ajuntaram tantos, que nem ainda nos lugares junto à porta cabiam; e ele anunciava-lhes a palavra. E vieram ter com ele conduzindo um paralítico, trazido por quatro. E, não podendo aproximar-se dele, por causa da multidão, descobriram o telhado onde estava, e, fazendo um buraco, baixaram o leito em que jazia o paralítico.”
(Marcos 2:1-4)

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