O ÚLTIMO MOVIMENTO
Xeque-Mate
“Porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos os meus caminhos, diz o Senhor.” (Isaías 55:8)
Existe uma obra de arte chamada Xeque-Mate. Pintada por Friedrich Moritz August Retzsch por volta de 1830, ela está no Museu do Louvre, em Paris. A cena é simples e brutal: um jogador humano, derrotado, inclina a cabeça diante de um tabuleiro. Diante dele, o Diabo sorri, certo da vitória. Atrás do homem, anjos observam com rostos caídos — porque, para eles, a partida acabara.
Conta-se que certa vez um grande enxadrista visitou o Museu, observou a pintura e ficou paralisado. O curador aproximou-se, preocupado, e indagou: — O que seus olhos contemplam? O enxadrista respondeu algo que mudaria para sempre o referencial a partir do qual se olhava para aquela obra: — Ainda há mais um movimento para o homem.
O homem no quadro desistira. O Diabo já comemorava. Os anjos, tristes, baixaram a cabeça. Mas um olhar mais apurado enxergou o que ninguém mais vira: um último movimento. Aquele que transforma uma aparente derrota em xeque-mate.
Aqueles que persistiram
José, filho de Jacó, foi vendido como escravo pelos próprios irmãos. No Egito, foi acusado injustamente e jogado na prisão. Se ele tivesse achado que a história terminava no poço, ou na casa de Potifar, ou na cela escura, teria morrido amargurado. Mas Deus tinha um movimento que José ainda não podia ver: cada humilhação era um passo silencioso em direção ao palácio. No fim, foi ele quem governou o Egito e salvou toda a sua família da fome.
Abílio Diniz, em 1989, foi sequestrado. Anos depois, enfrentou uma disputa familiar violenta. No livro Caminhos e Escolhas, ele escreve: “Já não era mais o homem agressivo, arrogante e prepotente que fora no passado.” Durante o período mais duro, não havia um único dia em que voltasse para casa sem ter sofrido alguma humilhação. Foi então que aprendeu judô, caratê, capoeira e musculação. Não mudou de bairro. Mudou a forma como andava por ele.
Nelson Mandela passou 27 anos preso. Durante o apartheid, torcia contra os Springboks, a seleção sul-africana de rugby — símbolo da opressão branca. Quando se tornou presidente, ao ser confrontado por um jornalista: “Eu soube que quando o senhor estava preso, torcia para qualquer um que jogasse contra eles.” Mandela respondeu: “Obviamente isso não é mais verdade. Devo mudar de opinião, de perspectiva — da mesma forma que espero isso dos outros.” Ele não pediu que os sul-africanos esquecessem o apartheid. Pediu que olhassem para o mesmo símbolo de opressão e o vissem como ponte.
Se José tivesse desistido no poço ou na prisão, sua família jamais teria sido salva da fome — e a história do povo de Israel teria sido diferente. Se Abílio Diniz tivesse se deixado vencer pelas humilhações, jamais teria se tornado um dos maiores empresários do Brasil. Se Nelson Mandela tivesse se rendido ao ódio, a África do Sul talvez nunca tivesse superado a ferida da segregação. Mas eles persistiram.
Canto de quem espera
Ton Carfi silenciou os sentimentos e firmou-se na Palavra. Em “Minha Vez”, ele louva:
Perguntei para Deus: por que o Senhor não quer me ouvir?
Me frustei, eu chorei, pensei até em desistir.
Mas quando eu calo, Ele me fala pra eu prosseguir.
Se desanimo, Ele me diz: filho, estou aqui.
Vai chegar a sua vez. Não te esqueci. Pode confiar em mim.
Aquilo que eu tenho preparado pra você, a sua imaginação não consegue prever.
Ore outra vez. Busque outra vez. Tente só mais uma vez.
Não falhará. Deus cuidará. Semeie os bons frutos e colherá.
Vitória, glória, vindas do céu. Não mancha as vestes, Ele é fiel.
A oração que resiste
Então, como resistir à dor?
Partilho neste livro que nem toda dor precisa de remédio imediato. Algumas dores precisam ser atravessadas. E para atravessá-las, resistir em oração não é um paliativo — é o único caminho, e é mais do que suficiente. Não porque a oração elimine o sofrimento imediatamente, mas porque ela nos sustenta enquanto Deus realiza em nós aquilo que ainda não conseguimos enxergar.
Escrevi certa vez, num momento em que razão e emoção divergiam dentro de mim:
Eu quero dizer que sim, porém digo que não.
A razão está suprimindo a emoção.
Ensinamentos sendo aplicados enfim.
Todas as vezes que eu quebrei a cara, meu instinto e todas as fibras do meu corpo me avisaram, mas mesmo assim, no fogo eu decidi colocar a mão.
Me queimei, me frustrei, reclamei! Será que elas falavam em mandarim?
Hoje não há mais negociação.
Sinto-me sucumbindo mediante as provações.
Estou estagnado e quero novas direções,
então minha fé será testada.
Para ela ser aprovada,
preciso seguir o meu caminho, sozinho, controlar minhas emoções
e insistir ao invés de desistir das minhas orações.
Um Legado imorredouro vitruviano
Meu avô Cláudio me ensinou, acima de tudo, a cultivar a leitura. Não para decifrar palavras, mas como busca incessante por respostas. E foi nos livros onde encontrei aquilo que me sustentou nas perdas: a sabedoria de Abílio Diniz, o perdão de Mandela, a paciência de José, a sabedoria transmitida por Deive Leonardo, a música de Ton Carfi. Quando atuei como professor em clínicas de reabilitação para dependentes químicos, levei livros aos meus alunos. Muitos deles foram citados e usados como referências, e também fontes de inspiração. A semente que meu avô plantou não parou em mim — ela frutificou.
Eu chamo isso de legado imorredouro vitruviano: aquilo que meu avô construiu — não com tijolos, mas com leituras e presença silenciosa — e que continua operando mesmo depois que ele se foi. O tabuleiro da minha vida parecia em xeque quando ele partiu. O inventário que não acaba, os anos de luto mal elaborado. Mas o movimento vencedor está ali, plantado por ele, esperando o momento certo de se revelar.
Quando Deus amolda as circunstâncias
Aprendi que, quando não queremos mudar de direção, Deus amolda as circunstâncias para nos compelir a tal. O sequestro de Abílio Diniz. Os 27 anos de Mandela na prisão. O poço de José. A refutação do artigo de Sheldon. A perda do meu avô. Cada uma dessas coisas foi, a princípio, uma derrota definitiva. Mas todas elas se revelaram, com o tempo, o movimento crucial que faltava para o xeque-mate.
Incluir Deus no processo não é um detalhe. É o centro. Não se trata apenas de mudar o referencial por esforço próprio. Trata-se de permitir que Ele mude a sua visão do tabuleiro. É nesse ponto que a oração deixa de ser um pedido de alívio imediato e se torna uma resistência ativa — a certeza de que, mesmo sem ver o movimento, você permanece sentado à mesa porque confia em quem ainda está sentado no trono.
Não se apresse em enterrar a partida.
Às vezes, o anjo está triste porque ainda não aprendeu a jogar xadrez.
“Aqueles que semeiam com lágrimas colherão com cânticos de alegria. Aquele que sai chorando, enquanto lança a semente, voltará com cantos de alegria, trazendo os seus feixes.” (Salmos 126:5-6)






