Piloto Automático
“Agir sem pensar não é bom; quem se apressa erra o caminho.” (Provérbios 19:2)
Existe um estado em que você está somente de corpo presente. A alma está em outro lugar. Você responde, caminha, dirige, trabalha — mas não está lá de verdade. A ciência chama isso de mente inconsciente: um reservatório de sentimentos, memórias e impulsos que operam sem que você perceba. Eu chamo de piloto automático. E vivi nele por muito tempo.
A forma de falar, o uso das palavras, os tons — tudo isso são formas de acessar essa parte da nossa mente. Tudo faz parte do nosso ser, conectado numa reação em cadeia. O que dizemos e como dizemos está ligado ao momento em que vivemos e como o guardamos. É um processo automático — e, muitas vezes, impossível de controlar apenas com a força de vontade.
Certamente você já ouviu o ditado: “A boca fala do que o coração está cheio.” A Bíblia diz o mesmo de forma ainda mais direta: “Raça de víboras, como podem vocês, que são maus, dizer coisas boas? Pois a boca fala do que está cheio o coração” (Mateus 12:34). Em outras palavras, aquilo que nos escapa — um comentário amargo, um desabafo inesperado, uma reação desproporcional — não é acidente. É vazamento.
Foi exatamente isso que aconteceu com o Klaus, o amigo do Tibia que mencionei em A Vida tem o sabor do tempero que escolhemos dar a ela. Quando ele disse “vai ser um momento difícil”, não estava apenas descrevendo uma viagem. Estava revelando o que já havia programado para sentir. As palavras o denunciaram. E, ao relê-las, ele pôde mudar o rumo daquela história.
Tendo em vista esses mecanismos que operam em nós, devemos nos atentar tanto à mente quanto ao coração — porque um é, de certa forma, reflexo do outro. O salmista já orava: “Sonda-me, Senhor, e prova-me; examina o meu coração e a minha mente” (Salmos 26:2). Ele sabia que ambos precisam ser vasculhados. O que está escondido em nós não desaparece — ele governa.
Permita-me agora passar a falar de mim. Minha referência masculina sempre foi meu avô paterno. Em 2001, uma decisão simples mudou toda a minha história. Meu avô tinha um sítio em Araçoiaba, cidade vizinha a Sorocaba, onde morávamos. Semanalmente, íamos juntos para lá. Na única semana em que decidi não acompanhá-lo, ele foi sozinho e morreu atropelado ao atravessar a Rodovia Raposo Tavares.
Disponho de uma memória privilegiada, mas justamente do ano de 2001 me restaram pouquíssimas lembranças. Tenho a sensação de que meu cérebro simplesmente apagou o que não podia suportar. Lembro-me de estar na presença dos meus pais e perguntar se eu precisava ir à escola no dia em que meu avô faleceu. Disseram que não. Pela manhã, fui ao velório. À tarde, no entanto, decidi ir à escola — era aula de Educação Física, bimestre de futebol, meu esporte favorito. Encarei como a oportunidade perfeita de me distrair. Chegando à quadra, meu colega Michael me viu e disparou:
— Ê, Guilherme, eu bem vi você ali fora matando aula.
Não faço a menor ideia do que se passou na minha cabeça naquele instante. Só sei que desabei em lágrimas ali mesmo, na frente de todos.
Dentre as poucas lembranças que guardo, recordo-me de ir visitar meu tio-avô acompanhando meu pai. Os traços de sua fisionomia remetiam tanto ao meu avô que, em determinado momento, comentei sobre a saudade que sentia e disse que pretendia voltar a visitá-lo sempre que ela apertasse. Meses depois, ele também faleceu.
Dos parágrafos acima, algumas reflexões podem ser extraídas. Dentre as poucas lembranças que me restam daquele ano, recordo-me de um colega de classe comentar que eu só falava do meu avô — o que confirma a tese bíblica sobre a boca falar do que o coração está cheio. Também não faço a menor ideia de como passei de ano, quais foram minhas notas ou o que aprendi. Os poucos conteúdos que guardei são anteriores ao falecimento. Parece-me bastante razoável afirmar que meu cérebro apagou informações como mecanismo de proteção. Redigindo este texto, pergunto-me: quantas outras coisas apaguei sem sequer perceber?
Certa vez, uma senhora que frequenta a mesma academia que eu, chamada Mara, relatou a recente perda de seu marido. Ela foi tentar dirigir, mas, em dado momento, o semáforo abriu e ela permaneceu parada. Teve um apagão momentâneo. O corpo estava ali, atrás do volante. A mente, em outro lugar — provavelmente tentando processar o que ainda não tinha forças para encarar.
Você tem se sentido assim? Desligado, ausente, como se estivesse vivendo por inércia ou talvez apenas sobrevivendo sabe-se-lá como? Não adianta fechar os olhos diante do problema. Mais sábio é transfigurá-lo em vitória. Uma das formas mais eficazes de superarmos qualquer situação é trazê-la para o consciente, tentando de alguma forma ressignificá-la — mudar o ângulo pelo qual enxergamos o que nos acontece, como propõe o capítulo Mude o seu referencial. Não se cobre demais — o assunto é delicado. Mas é possível sair desse estado ou, pelo menos, trazê-lo para um lugar mais confortável.
Passando pela perda, ficamos em constante troca de modus operandi. Ora pensamos na pessoa ausente e mergulhamos na tristeza, ora nos transportamos para um universo paralelo onde é possível não pensar em nada — e nesse estado estamos de corpo presente, mas a alma ausente. A oração, mais uma vez, nos ancora quando a mente não consegue se sustentar sozinha.
Retomando o foco para minha vida: após a morte do meu avô, meu pai tomou decisões que o levaram a ser internado no Instituto Bairral de Psiquiatria, onde permaneceu por cerca de quatorze anos ininterruptos. Por muito tempo, carreguei duas culpas: a de achar que, se eu tivesse acompanhado meu avô ao sítio, as coisas teriam sido diferentes; e a de crer que a internação do meu pai era consequência direta daquela perda. Uma culpa alimentava a outra. E, como abordo em Pare de se automedicar, quando tentamos resolver tudo sozinhos, os resultados costumam ser ainda piores.
Aprendi com o tempo que não podemos deixar o passado nos aprisionar e ser uma âncora em nossas vidas. Em relação à pessoa falecida, você carrega culpas? Se sim, quais dessas culpas têm te impedido de seguir em frente? Lembre-se: às vezes não fazemos isso de forma consciente. Ocasionalmente, não vivemos — apenas existimos, guiados por um piloto automático desconhecido. Mas é possível sair desse estado, ou ao menos trazê-lo para um lugar mais confortável. Podemos ainda fazer o exercício de pensar que, se essa pessoa estivesse entre nós, gostaria de nos ver bem e seguindo em frente — ou, pelo menos, é razoável supor isso. Afinal, não se trata apenas de alguém que amamos, mas de alguém que também nos amava.
Toda a vivência com meu pai me deixou numa condição de dor profunda. Durante meu processo de luto, aprendi algo que abordo em Pare de se automedicar: o comportamento humano se baseia em duas forças — buscar prazer ou evitar a dor. Meu cérebro aprendeu a evitar a dor a qualquer custo. Meu modus operandi era simplesmente não pensar, já que pensar me jogava num estado de tristeza e desconforto profundo — algo que eu queria evitar a qualquer custo. Como eu, sendo tão jovem, poderia lidar com aquilo? Algumas vezes, meu pai me ligava da clínica, chorando, pedindo desesperadamente que eu o tirasse de lá, pois ele não aguentava mais. Eu não sabia o que fazer com essa dor — então decidi inconscientemente a empurrar para longe. A consequência foi que amontoei decisões ruins: amizades desagregadoras, relacionamentos vazios, dinheiro gasto de forma irresponsável, vida noturna assídua, estéril e improdutiva, e também tempo perdido, correndo atrás do vento. Por muito tempo, frequentei baladas que não me preenchiam e que, muitas vezes, sequer me agradavam. Eu me perguntava por que insistia naquilo. A resposta, hoje sei, é que eu havia me doutrinado para não pensar. E uma mente que se recusa a pensar é uma mente que se entrega a qualquer vaga distração.
Com base no que vivi, pergunto a você que está enlutado: quais lugares tem frequentado? Que companhias estão ao seu redor? Não como um interrogatório, mas como um convite a olhar para si mesmo. Porque eu sei o que é preencher o vazio com qualquer coisa que faça barulho. Eu sei o que é estar rodeado de pessoas e ainda assim profundamente só. A pergunta que fica é: você está vivendo ou apenas sobrevivendo?
Falei sobre a Amanda em A Vida tem o sabor do tempero que escolhemos dar a ela, mas há um aspecto da história dela que vale retomar aqui. Durante o luto pela mãe, ela se lançou num segundo emprego e, em certo momento, chegou a cogitar um terceiro. Suas contas se descontrolaram, e ela se colocou em situações cada vez mais exaustivas. O objetivo — inconsciente, claro — era preencher cada minuto do dia para não sobrar tempo de pensar na própria dor. Cheguei a apelidá-la, na época, de “mulher cochilo”, porque vivia tendo atitudes impensadas. Os excessos escondiam as faltas profundas em sua alma.
Que excessos você tem cometido? Em que áreas da sua vida eles se evidenciam — trabalho, compras, redes sociais, isolamento ou alguma outra área? Você já avaliou de que forma esses excessos estão interligados ao luto? Em sua avaliação honesta, esta é a melhor forma de lidar com a dor? Além da leitura, você já pensou em buscar ajuda profissional? Você tem buscado a Deus de alguma forma? Não há vergonha em pedir ajuda. Afinal, como já refletimos, nem toda dor precisa de um remédio imediato — a paciência nos ensina a não apressar a cura, mas também nos ensina que atravessar o processo sozinho é mais doloroso do que precisa ser.
Aprendi que a paciência e a perseverança são ferramentas de superação que, se bem utilizadas, produzem bons frutos. A paciência é amarga, mas seus frutos são doces. E a perseverança nos mantém de pé quando tudo ao redor parece ter desabado. Fugir do inverno é inútil. Tentar permanecer no verão a qualquer custo — com distrações, anestesias, excessos — só prolonga o ciclo. O inverno chega de qualquer jeito. E dura o tempo que tiver que durar. Mas sempre acaba. A paciência nos ajuda a aceitar essa travessia, em vez de desperdiçar energia lutando contra ela.
É preciso vencer o receio de tomar decisões erradas. Não há dúvidas de que você as tomará — eu também as tomei, e certamente tomarei outras no futuro. Mas o sucesso é resultado do bom julgamento, e o bom julgamento muitas vezes vem da experiência. E a experiência, infelizmente, costuma vir do mau julgamento. Não se paralise. O piloto automático já fez você perder tempo demais. Assumir o controle exige coragem para errar e, sobretudo, para aprender.
Olhando para trás, percebo que muitas das minhas escolhas ruins foram tentativas desesperadas de calar a mente. O piloto automático me manteve anestesiado por anos. Mas Deus não nos criou para viver assim. A Bíblia nos convida à lucidez, ao confronto, à renovação. “Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovação da sua mente” (Romanos 12:2). Esse versículo, que já citei em outro capítulo, é a antítese do piloto automático. Ele não promete ausência de dor, mas propõe uma mente que enfrenta, que se renova, que escolhe de forma consciente.
Levar cativo todo pensamento e torná-lo obediente a Cristo é o oposto de viver no piloto automático. É assumir o controle da aeronave. É parar de apenas reagir e começar a escolher — com a mente renovada, o coração vigilante e a alma ancorada em Deus. É fazer como o salmista: convidar o Senhor a vasculhar o que está escondido, a trazer à luz o que está no escuro, a guiar o que estava sem rumo.
“Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração; prova-me, e conhece os meus pensamentos. E vê se há em mim algum caminho mau, e guia-me pelo caminho eterno.” (Salmos 139:23-24)






