Nem toda dor precisa de remédio imediato

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Nem toda dor precisa de remédio imediato

“Mas os que esperam no Senhor renovarão as forças, subirão com asas como águias; correrão e não se cansarão, caminharão e não se fatigarão.” (Isaías 40:31)

A promessa é atraente. O processo, porém, nem sempre é. Esperar em Deus nem sempre é tarefa fácil. Queremos respostas rápidas, soluções imediatas, sinais claros de que tudo acontecerá do nosso jeito. Em muitos momentos, acreditamos que nossos próprios planos são melhores e mais eficazes do que os de Deus. Porém, a fé nos conduz a um lugar diferente — um lugar que confronta nossos desejos mais íntimos. Um lugar chamado confiança. Mesmo quando não entendemos completamente o que está acontecendo.

Hoje, enquanto lia Uma Vida com Propósitos, de Rick Warren, cheguei ao dia 9 do devocional, que começa com uma afirmação marcante: “O sorriso de Deus é o objetivo da sua vida.” Ao longo desse capítulo, o autor propõe uma pergunta simples, mas profunda: o que faz Deus sorrir?

Entre os pontos apresentados, dois chamaram especialmente minha atenção: Deus se alegra quando o amamos acima de qualquer coisa e quando confiamos nele completamente. Em outras palavras, mais do que rituais ou ofertas, o que Deus realmente deseja é relacionamento e confiança. Como está escrito em Oséias:

“Porque eu quero a misericórdia, e não o sacrifício; e o conhecimento de Deus, mais do que os holocaustos.” (Oséias 6:6)

Foi nesse contexto que o autor relembra a história de Noé. Deus lhe pediu algo que desafiava toda a lógica humana: construir uma arca quando não havia uma nuvem no céu. Durante décadas, ele continuou obedecendo, mesmo sem ver resultados imediatos e enfrentando críticas e incompreensão. Sua confiança não estava nas circunstâncias, mas em Deus.

Assim como Noé, eu também fui confrontado com uma longa espera que desafiava minha lógica, os prognósticos e minha paciência. Parte da minha renda vem de imóveis comerciais herdados de um inventário familiar. Durante a pandemia, quando muitos estabelecimentos foram considerados não essenciais e o movimento nas ruas praticamente desapareceu, essa renda caiu abruptamente. Diante da crise que afetava tantos, os advogados responsáveis pelo inventário solicitaram judicialmente a liberação de um valor que poderia ajudar naquele momento. O que deveria ser uma solução emergencial acabou se arrastando por sete meses — sete longos meses.

Ao longo daquela espera, erros e burocracias da própria justiça tornaram tudo ainda mais desgastante. A frustração só aumentava. As contas se acumulavam, eu não tinha reserva alguma e, em muitos momentos, a indignação tomou conta de mim — inclusive em relação a Deus. Quando a situação já estava insustentável, recorri a uma tia, que inicialmente se dispôs a me ajudar. Porém, ela acabou mudando de ideia.

Lembro de um dia específico em que tudo chegou ao limite. A ração dos meus cachorros tinha acabado. O carro estava com a troca de óleo atrasada. Eu havia usado os últimos reais no mercado. Estava na casa da minha então namorada, Bianca, e não tinha gasolina sequer para voltar para casa. E, para completar, já não havia mais esperança alguma de que aquele dinheiro — aguardado há tantos meses — fosse finalmente liberado.

Foi nesse cenário que algo mudou dentro de mim. Mesmo sem qualquer razão aparente, surgiu uma certeza: Deus não iria me desamparar. Algo — não sei o quê — me levou a abrir o aplicativo do banco. Naquele período, eu estava numa jornada com Deus através do livro 40 Dias de Jejum e Oração, buscando intimidade e entrega a Ele. E mesmo sem entender como tudo se resolveria, senti a presença d’Ele me confortando e guiando cada passo.

Quando olhei, ali estava: o valor havia sido liberado. Mais do que o alívio financeiro, ficou a certeza: Deus havia cuidado de mim — mesmo quando eu não conseguia enxergar sua mão durante o processo. Coincidentemente, o versículo do dia 9 do devocional de Rick Warren, para memorizar, dizia:

“O Senhor se agrada daqueles que o adoram e confiam no seu amor.” (Salmos 147:11)

Essa palavra reforçou a experiência: confiar no amor de Deus, mesmo na espera, é o que verdadeiramente agrada ao coração d’Ele.

Deus nunca pediu performance emocional. Ele nunca exigiu que você fingisse estar bem para merecer amor, cuidado ou a presença d’Ele. A graça de Deus também alcança dias cansativos, crises internas e momentos em que a alma simplesmente não consegue mais suportar tudo sozinha.

Ele nos permite passar por processos dolorosos, como forma de nos aproximarmos d’Ele, aprofundando assim nosso relacionamento.

Talvez seja exatamente isso que alguém precisava ler hoje: sentir dor não te afasta automaticamente de Deus. O próprio Cristo sentiu tristeza profunda, chorou e sofreu. A diferença é que Ele não abandonou o Pai no meio da dor.

Então não tenha vergonha de admitir que existem batalhas acontecendo dentro de você. Deus não se aproxima só da sua versão forte. Ele permanece até nas partes quebradas que ninguém vê.

Quando não há remédio imediato para a dor, ainda existe algo que podemos fazer: permanecer. Permanecer em oração, permanecer confiando, permanecer caminhando mesmo sem entender completamente o processo. Aprendi que nem toda dor precisa de remédio imediato. Algumas dores precisam ser atravessadas. E para atravessá-las, muitas vezes precisamos resistir em oração. Não porque a oração elimina instantaneamente o sofrimento, mas porque ela nos sustenta enquanto Deus realiza em nós aquilo que ainda não conseguimos enxergar.

É natural querer aliviar a dor o mais rápido possível. Queremos respostas imediatas, soluções instantâneas, escapar do desconforto que certas situações nos trazem. Mas a vida — e a própria fé — nos ensina algo essencial: nem toda dor precisa de remédio imediato; às vezes, o que precisamos é aprender a esperar.

Essa reflexão me trouxe à mente uma passagem do livro O Poder da Paciência, de M. J. Ryan. No capítulo “A paciência nos coloca em harmonia com os ciclos da natureza”, a autora compara a vida humana às estações. Queremos viver sempre no verão — a estação das conquistas, das respostas prontas, do controle. Mas, para isso, evitamos o outono e o inverno a qualquer custo: distrações, pressa, tudo vale para não sentir o desconforto que elas trazem.

No entanto, assim como na natureza, cada estação faz parte do processo de crescimento. Se não nos harmonizarmos com cada tempo quando ele chega, dificilmente amadureceremos. O inverno pode parecer um período de silêncio, espera ou até perda, mas é justamente nele que antigas estruturas — vícios, compulsões, comportamentos autodestrutivos — começam a se desfazer. E é exatamente quando elas se desfazem que novos espaços são criados.

Assim também acontece conosco. Muitas vezes é justamente nos períodos mais difíceis que somos convidados a rever prioridades, abandonar o que nos adoece e abrir espaço para algo novo. O inverno não é o fim; é o preparo para a próxima estação.

A paciência, portanto, nos ajuda a aceitar esses ciclos e a reconhecer que também fazemos parte deles. Esperar não significa que Deus se esqueceu de nós. Muitas vezes significa apenas que Ele está trabalhando em um tempo diferente do nosso. Assim como na natureza, o inverno pode parecer silencioso e estéril, mas é ele quem prepara o solo para a próxima estação. Na vida também é assim: há dores que não precisam de remédio imediato, porque fazem parte do processo pelo qual Deus nos amadurece.

Aprendemos com a natureza que cada estação chega e permanece pelo tempo que precisa permanecer. O inverno não pede licença para chegar, assim como o verão não pode ser apressado. Cada estação cumpre seu propósito e, inevitavelmente, dá lugar à próxima. Essa é a lei da natureza. Da mesma forma, existem períodos em nossa vida que não podem ser abreviados pela força da nossa vontade. Há dores que precisam ser atravessadas, não evitadas.

Quando estamos sofrendo, é comum acreditar que não vamos suportar. Pensamos que a situação atual é grande demais, pesada demais, longa demais. Porém, existe uma verdade simples que gosto de lembrar nos dias difíceis: até hoje Deus me sustentou em 100% dos meus dias ruins.

Se alguém tivesse me contado, anos atrás, algumas das situações que eu enfrentaria, provavelmente eu teria respondido: “Eu não vou aguentar.” A perda de pessoas queridas, a incerteza financeira, os conflitos familiares, os períodos de espera e tantas outras dificuldades pareciam maiores do que minha capacidade de suportá-las. No entanto, olhando atentamente para trás, percebo que atravessei todas elas.

Não porque eram fáceis. Não porque eu era forte o suficiente. Mas porque Deus me sustentou em cada uma delas.

Talvez uma das formas mais práticas de lidar com a dor seja lembrar-se de onde Deus já nos tirou — momentos em que tudo parecia perdido, mas Ele cuidou de nós. Essa memória fortalece a confiança para enfrentar o presente, pois aquilo que hoje parece insuportável pode um dia tornar-se mais uma prova de que Ele nunca nos abandonou.

E talvez esta seja a grande lição: aprendemos, muitas vezes da maneira mais difícil, que não adianta tentar consertar a própria história com nossos próprios esforços. Queremos resultados rápidos, alívio imediato, uma solução que vença a dor sem atravessá-la. Mas algumas feridas só se curam quando entregamos — quando paramos de lutar sozinhos e permitimos que alguém maior cuide de nós.

Porque quando a gente entrega até mesmo nossa dor mais profunda — aquela que tentamos esconder, anestesiar ou resolver com nossas próprias forças — é aí que a verdadeira cura começa. Não pela nossa pressa, mas pelo tempo d’Ele. Não pelos nossos métodos, mas pelo cuidado d’Ele.

“Fui moço e agora sou velho, mas nunca vi o justo desamparado, nem a sua descendência a mendigar o pão.” (Salmos 37:25)

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